Fina Flor


26/05/2006


:: Eu não faço nada por obrigação ::

 

 

 

 

Compartilho a mesma idéia de Walt Whitman: “ Eu não faço nada por obrigação, eu faço por impulso de vida [como haveria eu de fazer por obrigação os gestos do coração?]. Por isso não tenho postado textos diariamente.

 

Eu até que gostaria de ser uma máquina de criatividade que jorra palavras, sentimentos, esperança, sabores e aromas ao vento todas as manhãs, mas sou apenas um ser humano inquieto com alma de criança - não me contento com uma bala de marmelo, quero sempre provar os outros doces da loja, mesmo que minha barriga doa ao final do passeio.

 

Não escrevo por escrever. Nem aos quinze anos o fazia. Não me imagino, por exemplo, postando uma frase sem sentido no blog só para que as pessoas pensem que sou excêntrica, tampouco escrevendo que estou sem inspiração. Cada pessoa tem um estilo e uma proposta. Visito blogs de pessoas que tenho carinho e admiração que às vezes escrevem simplesmente o que vivenciaram no fim de semana e eu adoro isso, pois me sinto participando da vida delas de alguma forma, mas eu, infelizmente, não consigo agir assim. Não sei, mas fico com a impressão de que estou devendo algo às pessoas que me lêem e principalmente a mim mesma.

 

Os empreendedores dizem que para vendermos um produto precisamos gostar dele. Penso que o mesmo se aplica ao ato de escrever [no meu caso]. Se um texto que escrevo não me diz muita coisa, imagino que não dirá ao próximo, então, o deleto imediatamente. Tenho amigos que brigam comigo por causa disso, dizem que é exatamente o contrário, que um texto que não me serve para nada pode tocar alguém... Será que sou egoísta?! Não sei, só sei que não consigo!

 

Nos últimos tempos eu tenho andado brigada com meus textos. Essa briga está me tirando boas noites de sono. Mas nada posso fazer contra a picada fatal de cobras como Goethe, Sartre, Baudelaire, Bob Dylan, Clarice entre outros. O veneno já está em minhas veias e se manifesta todas as vezes que penso em escrever. Sinto falta de ar, taquicardia, vontade de chorar, vontade de sumir, vontade de gritar, vontade de fugir. Fico tão consumida por essas vontades que sequer consigo mexer um dedo.

 

O veneno dessas cobras está matando meus textos dia após dia – nada parece ter valor depois que meu sangue se misturou... Mas como do veneno também se faz o soro eu aguardarei pelo dia em que eu possa aprender a dosagem que me eleva. Por enquanto, tentarei rabiscar alguns sonhos nesse canteiro Fina Flor.

 

*** A vocês, jardineiros fiéis, peço desculpas pelo sumiço essa semana, mas tive muitas pendências para resolver e ainda por cima fiquei dodói. Assim que puder farei uma visita a todos. Por ora, deixo os versos de Helder Câmara agradecerem por mim o carinho de vocês:

 

Existem
criaturas
como a cana.
Mesmo postas
na moenda,
reduzidas
a bagaço,
só sabem
dar doçura.

Escrito por Mônica Montone às 17h04
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21/05/2006


:: Para quê serve a Arte que não comunica? ::

 

 

foto:  A . L.  www.olhares.com

 

 

Existe coisa mais careta e démodé do que bancar o maluco? Hipocrisia maior do que denunciar os hipócritas? Coisa mais chata do que complicar o simples só para parecer inteligente?

 

Até onde aprendi a Arte que absorvemos serve tão somente para nos ajudar na construção de processos dialéticos pessoais e interpessoais... Ela traduz, reduz, amplia, ensina, absorve, recicla. Qualquer Arte que se proponha Arte tem como função primordial a transformação daquele que a contempla e daquele que a cria. 

 

Catarse... Muitas vezes é assim que germina a Arte. Catarse para aquele que cria e catarse para aquele que se identifica mesmo sem saber ao certo o porquê.

 

Não sou nenhuma expert no assunto, mas, a partir do momento em que me disponho a trabalhar com Arte, creio que no mínimo devo refletir sobre o assunto. E a pergunta que tenho me feito nos últimos tempos - que deriva de minhas andanças por esse campo de centeio - é: para que serve a arte que não comunica??????? Para deixar explicito que vivemos no vazio das incertezas?? Ai, esse discurso me cansa....

 

Todo mundo está careca de saber que a completude não existe, que há em nós um vazio primordial e que somente morrendo é que se nasce. E daí? Amontoar um monte de palavras num texto desconexo vai fazer com que o amontoador conviva melhor com esses sentimentos? Vai fazer com que o contemplador que não entende merda nenhuma consiga avaliar “a densidade” de seu vazio????????? Entortar um ferro só para reafirmar que hoje tudo é matéria-prima para a Arte vai transformar alguma coisa?  A resposta, pelo menos para mim, é “não”.

 

Não acredito em Arte que não transforma, nem acredito em terapia que não atue no campo da mudança, mas na área das explicações causais. Assim como não acredito em boas intenções sem segundas intenções, tampouco loucura reluzente em néon na testa de qualquer careta que se diz doidão.

 

O verdadeiro louco, para mim, é o bufão, o louco do Tarot. Aquele que tudo sabe e nada diz. Aquele que aprendeu a olhar, mergulhar e conviver com seus dramas. Aquele que sabe usar a palavra certa para cada tipo de ouvido. Aquele que quer ir para o norte e vai, sem desviar, mesmo pegando atalhos. Aquele que sabe o momento exato de se calar. Aquele que sabe que as agressões nada mais são do que incapacidade de lidar com medos e frustrações e por isso espera, calmamente, o tempo do outro de chegar à leveza. O que diz coisas duras, sem perder a ternura jamais.... O que descobriu um caminho para a transformação do metal em ouro e gentilmente convida o Outro para um passeio pela mesma floresta... O que não pretende responder nadar, saber nada, mas, sentir e perceber tudo.... Não o candidato à vaga de artista só para demonstrar que é contra o sistema, para sair do anonimato ou para comer alguém...

 

Sei que é um trocadilho infame, mas, acredito que Arte não se faz com arte [leia sapequice].... Se faz com calma, alma, sangue, sublimação e anseio de transformação......

 

Escrito por Mônica Montone às 22h18
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17/05/2006


:: Galãs ::

 

 

foto: Guilherme e Raquel Lechat www.olhares.com

 

 

Às vezes tenho a sensação de que certas pessoas saíram diretamente das telas de cinema para as ruas. Outras dos grandes livros. Essas são até interessantes! Gosto de observá-las e de me envolver com elas. Mas as que saíram de folhetins baratos, ui, ai, ui... Para essas não tenho estômago.

 

Mas nem sempre foi assim! Houve um tempo em que galãs de folhetins baratos me interessavam. Afinal, eles pareciam saber das coisas do mundo e da alma. Me olhavam nos olhos e me faziam acreditar que eu tinha algo especial, algo que eu ainda não havia descoberto.

 

Demorei alguns anos para descobrir que “o algo especial” deles era a minha bunda... Porém, antes dessa grande descoberta me apaixonei por todos os que me fizeram acreditar que eu estava no caminho errado e que, lógico, eles me colocariam no caminho certo.

 

Não havia afrodisíaco maior para mim do que a sensação de estar com um homem que sabia das coisas. Se ele tivesse alguma forma de poder, então, aí eu arriava os quatro pneus. Poder, naqueles tempos, significava tocar violão, ter uma banda, ser ator, escritor, conhecer pessoas importantes ou qualquer coisa relacionada à arte – talvez porque eu fosse uma artista potencial [cantava, dançava, fazia teatro e escrevia] e estivesse a espera de algum mestre para seguir e ser pupila, não sei...

 

Os galãs de folhetins que me ganhavam tinham características muito parecidas: eram inteligentes [me observavam por meia hora, descobriam minha senha e entravam em meu coração], aumentavam suas conquistas e se apresentavam como os top top top de linha, me apresentavam mundos que eu desconhecia [através de livros, músicas, lugares e “viagens filosóficas”], se mostravam seguros, e,  tchatchatcham: mostravam que conheciam meus defeitos, vontades e sonhos, mais que isso, davam a impressão que amavam meus defeitos.

 

No entanto nenhuma dessas características era mais relevante que a idéia do destino. Uma simples frase do tipo “a gente tinha que se encontrar” ou “eu sabia que a gente ainda ia viver alguma coisa desde o momento em que nos conhecemos” funcionava como combustível, antídoto e veneno.

 

Hoje, os galãs de folhetins não me causam mais que pena. Deles quero distancia. O tempo me mostrou que esses moçoilos não querem, nem sabem amar. Que para eles o mais importante é a conquista e o jogo da sedução. Que eles precisam dessa sensação de conquista para manter seu personagem em dia, personagem este que mantém  - na verdade transmite a ilusão de que mantém - sua segurança e estabilidade emocional.

 

Hoje, percebi que eu não passava de uma coadjuvante nas histórias desses galãs e como sou vaidosa demais e sempre sonhei com o papel principal decidi abandonar esse palco de ilusões.

 

Minha senha atualmente é outra e para descobri-la é preciso mais, muito mais que “poder artístico”, arrogância, jogos de sedução, previsões do futuro e leituras do passado. Minha senha só conhece quem merece!

Escrito por Mônica Montone às 11h41
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15/05/2006


 

Foto: Pedro Miguel Afonso www.olhares.com

 

 

Mania: 1. desequilíbrio mental marcado por exaltação, tagarelice incoercível, euforia e turbulência. 2. Excentricidade. 3. Gosto exagerado por alguma coisa. 4. Idéia fixa; obsessão. [dicionário Aurélio] 

 

1. Sim, eu padeço de exaltação, tagarelice, euforia e turbulência [será que sou desequilibrada mentalmente? Fiquei preocupada, agora?! Rs*].

 

2. O que é ser excêntrico hoje em dia? Gostar da banda Calcinha Preta e de Frank Sinatra ao mesmo tempo? Decorar a casa com ares indianos e gostar de comida condimentada? Fazer yôga? Ser artista “marginal chique”?   No dicionário, excentricidade é sinônimo de “desvio ou afastamento do centro” e/ou  “extravagância” [qual centro????????? Existe um centro?]... Extravagância, sim, sou extravagante  - no dicionário, sinônimo de “aquele que se afasta do habitual”.

 

3. Tudo que gosto, gosto muito, exageradamente, ou, simplesmente não gosto. As coisas mornas não me despertam o paladar. Se eu te amar, terás em minha morada o tratamento de um herói: serei como Circe, sempre disposta a cuidar de seu Ulisses com essências, mel, incensos e velas para perfumar.

 

4. Idéia fixa? Sim, algumas... No momento não fumar.

 

Mas, no senso comum, chamamos de mania aquilo que fazemos com freqüência e/ou somos viciados [talvez condicionados seria a melhor palavra, aqui] de alguma forma. Como aceitei o desafio da Carol [Casa das palavras] de falar cinco manias minhas e não sou “crazycool” a ponto de apenas responder o que achei no dicionário [para parecer que sou inteligente e descolada], lá vai:

 

 

1. Não saio na rua, nunca, em hipótese alguma, sem óculos escuros, mesmo se estiver chovendo [nunca fiz um teste para saber, mas tenho certeza que meus olhos são sensíveis ao sol].

 

2. Não consigo comer se não tiver salada, adooooooro [exceção quando como massas]

 

3. Não durmo antes das 3h

 

4. Meu celular está sempre desligado [escuto os recados na secretária e só ligo o aparelho quando preciso fazer uma ligação]

 

5. Escrever e ler todos os dias [nem que seja escrever e-mails enoooormes para amigas distantes com ares de “psicolega”, rs*, e ler apenas jornais].

 

E tem também, claro, aquelas famosas esquisitices: dançar sozinha dentro do quarto com o som no último volume, não sair de casa sem anéis, brinco e perfume [mesmo que seja para ir apenas à padaria], comprar coisas que não estou precisando só porque estava baratinho e/ou na liquidação, não deixar ninguém entrar na cozinha quando estou cozinhando, dormir assistindo desenho animado na TV, etc, etc, etc.....Ah, eu tinha mania de fazer o que a meninha da foto está fazendo, minha mãe ficava braaaaaava, rs*....

 

Espero que vocês tenham uma boa semana,

 

Beijos,

 

MM

Escrito por Mônica Montone às 12h15
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12/05/2006


:: O casal ::

 

 

foto: Geoffroy Demarquet www.olhares.com

 

 

Ela tinha 12 anos quando conheceu Nico. Apesar de menina e dos sonhos amarrotados que guardava em papéis de carta tinha os olhos tristes e o sorriso amarelado – havia nela uma certeza de que não existia um canto sequer que coubesse suas pegadas.

 

Embora fosse mais velho, Nico sentia as mesmas ausências. Seus cabelos longos, suas unhas pintadas de vinho, as roupas pretas, as correntes no pescoço, pareciam exigir que alguém enxergasse o tamanho de sua desilusão – aos 16 anos não acreditava mais na vida, nem nas pessoas.

 

Se conheceram na fila do banheiro de um show de rock. Seus olhos mareados de tédio e vodka barata perceberam que existia, ali, uma certa cumplicidade. Sem trocar nenhuma palavra entenderam que deviam entrar juntos no banheiro.

 

Tina, que aos 12 anos já não era mais virgem, não hesitou em se deitar no chão imundo, fedendo a urina, para que o garoto a devorasse e lhe lambesse as chagas precoces.

 

Começaram a namorar e em pouco tempo Tina conheceu os paraísos artificiais onde Nico se refugiava quando a sensação de não existir o impedia de respirar. Mas nem tudo era perfeito nesses paraísos. Tina sentia ciúmes do namorado com outras garotas e por duas vezes tentou se matar: uma tomando comprimidos, outra cortando os pulsos. Nico, sempre que tinha suas vontades negadas enchia a namorada de bordoadas.

 

Alguns meses depois Tina descobriu que estava grávida. Nico - com os sentidos adormecidos - espancou a menina até sangrar. Tina tentou um aborto e morreu no fundo do quintal de uma clínica imunda.

 

Seus pais, desesperados e em busca de um culpado, denunciaram Nico à polícia. O menino foi para a FEBEN – de onde fugiu meses mais tarde sem que ninguém soubesse seu paradeiro, se estava vivo, ou morto. 

 

Inconformados com a trágica morte da filha Tina, os pais lançaram uma campanha:

 

“O mistério da vida adverte: NICOTINA não traz segurança, nem garantias..... E mata”.

 

 *** Parei de fumar tem três dias [torçam por mim, jardineiros queridos] ***

E por falar nisso, olhem o que achei na Uol, hoje: http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2006/05/11/ult1766u16167.jhtm

Escrito por Mônica Montone às 00h00
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09/05/2006


:: Reverberações ::

 

 

foto:Bart  www.olhares.com  

 

Por mais que eu saiba que cada pessoa escuta somente o que quer ainda me surpreendo quando vejo isso de forma tão explícita. Melhor assim, sinal que ainda guardo ares de estréia em minhas narinas.

 

Li e reli várias vezes o texto que escrevi sobre o que chamei de “arrogancia carioca” [post abaixo] após receber os comentários dos amigos e fiquei buscando onde e como eu poderia ter jogado lenha na fogueira da estúpida guerrinha Rio X São Paulo. Confesso que não econtrei pistas nem gravetos!!!! Em nenhum momento eu fiz comparações entre um Estado e outro... Então, porque será que algumas pessoas “escutaram” assim?????? Somente pelo fato de eu ser campineira????? Se eu tivesse nascido em Manaus será que a percepção das pessoas seria a mesma?

 

Por que escolhi falar do Rio [mais especificamente a zona sul e seus moradores] ao invés de globalizar a situação e falar “das pessoas” e não “de alguns cariocas”?????? Simplesmente porque não conheço todas as pessoas do mundo, não convivo com elas... Eu vivo e convivo no Rio, por isso falei daqui. Falei porque essas coisas estão em meu cotidiano. Acho que foi o Manoel Carlos que certa vez disse que só nos tornamos universais quando falamos de nossos quintais, pois, geralmente, os quintais são todos muito parecidos. E, a partir do meu post anterior, confirmei a máxima do novelista [?], pois várias pessoas escreveram dizendo que o mesmo ocorre em suas cidades [o que não foi nenhuma surpresa e não deixou de me causar tristeza].

 

Não pretendia ser universal, queria, apenas, falar do meu quintal. Falar de certos entulhos que poluem a beleza do meu canteiro e que deixam alguns dias meus mais cinza que outros.

 

Outra coisa que parece não ter sido “ouvida” por algumas pessoas que por aqui pousaram foi: em nenhum momento “eu generalizei a coisa”. Procurei ter o máximo de cuidado ao dizer “alguns cariocas”, sempre, e que “ há  [como em todo lugar ou situação] boas exceções”...

 

Não podia, nem que quisesse, generalizar as coisas e colocar todos os moradores do Rio [cariocas ou não] num mesmo balaio, simplesmente porque namoro e amo profundamente um carioca há 4 anos. Porque tenho amigos sinceros, doces, inteligentes e leais por aqui.  Mas não podia, também, deixar trancada em mim - como um pêlo encravado - essa sensação de tristeza para com a atitude de alguns [que são, sim, e infelizmente, muitos].

 

No entanto, o que mais me surpreendeu, mesmo, foi a escuta distorcida em relação à eterna guerra Rio X São Paulo - que até onde sei foi gerada pela família Rodrigues, particularmente falando, por Mário Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues, que iniciou os campeonatos brasileiros de futebol e a partir daí........................ Todos nós sabemos qual foi o resultado...... Aliás, eu detesto futebol, mas isso é assunto para um outro  post.

 

O que fiquei pensando depois de tudo isso foi: será que a gente lê, mesmo, os escritores ou apenas os traduzimos e os usamos para sorver alguma gota que mate nossa sede de amor, compreensão e auto-entendimento??????? Os escritores são, então, como as putas? Que vestimos com a fantasia que melhor nos agrada para obter minutos de satisfação?

 

Não, jardineiros fiéis -  que me ajudam a adubar o canteiro Fina Flor - não quis fazer comparações grosseiras. Peço desculpas, aliás, se passei essa impressão.... Nasci em Campinas, moro no Rio e já tive  prazer de conhecer muitos Estados brasileiros, mas, tenho consciência de que nenhum pedaço de chão, nenhum cidadão, rico ou pobre, me dára o nobre direito de ser eu mesma e de “ver beleza em tudo que vejo porque sou poeta e me alimento do que é belo” [Claufe Rodrigues].....

Escrito por Mônica Montone às 13h50
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07/05/2006


:: Fazenda asfaltada ::

 

 

 

 

Estou há algumas semanas procurando uma forma de escrever sobre algo que tem me angustiado sem parecer preconceituosa e/ou etnocêntrica. Um dos textos que iniciei sobre a questão brincava com o jogo de retóricas: “não ser preconceituoso é uma forma de ser preconceituoso com quem tem preconceitos”.

 

Brincadeiras a parte,  penso que, talvez minha preocupação seja apenas vaidade, ou, uma vontade excessiva de não desagradar ninguém e parecer perfeita. Afinal, por que devo temer mostrar minhas fraquezas?

 

Dito isso, vamos à questão: a arrogância e “malandragem” dos cariocas da gema. Antes de começar, porém, quero deixar claro que há [como em qualquer lugar ou situação] boas exceções.

 

Moro no Rio há seis anos e desde que me mudei para cá fiquei deslumbrada com a cidade – para uma menina do interior que nunca tinha morado fora de sua cidade o Rio foi sinônimo de New York. Fiz bons amigos, fui extremamente bem recebida pela classe artística e literária da cidade e participei de shows, peças e eventos impagáveis e inesquecíveis. Gosto daqui. Esse clima de cidade grande a beira mar combina com meu jeito de ser. É uma delícia, por exemplo, poder entrar num banco para pagar uma conta toda descabelada e de chinelo havaianas sem que as pessoas te olhem de canto. Assim como é uma delícia caminhar na orla, encontrar um amigo e sair da caminhada direto para um chope.

 

Mas a arrogância de alguns cariocas da gema [leia: os que vivem na zona sul] tem me deixado cada vez mais triste e irritada. Fico pensando se o fato de terem nascido numa das cidades mais belas do mundo não tenha dado a idéia ilusória de que eles “podem tudo”. Ou, se o fato de achar que aqui é a Los Angeles brasileira não contribui para tanto desrespeito para com o próximo-  e desrespeito, nesse caso, no sentido literal: incapacidade de enxergar o outro.

 

Uma série de ocorrências me fez questionar isso tudo, sendo: a) uma propaganda onde Evandro Mesquita diz “o Rio é o resumo do Brasil” – sabemos que a propaganda trabalha com a demanda [desejo inconsciente] e com mensagens subliminares... Sendo assim, concluo que o marqueteiro responsável pela propaganda foi genial, pois captou exatamente o pensamento do inconsciente coletivo dos que vivem na cidade; b) uma propaganda de um jornal onde uma socialite diz “porque todo carioca é uma celebridade”; c) num domingo de sol, onde crianças brincavam com seu baldinho a beira mar  [no Leblon ]“a turma do açaí” soltou na areia 3 cachorros pitibus, o que fez com que vários banhistas saíssem da praia e ficassem apavorados; d) num show, um “bombadão” me puxou pelo braço e tentou me beijar a força, quando o empurrei e o chamei de babaca ele devolveu o empurrão  - eu quase cai sentada -  e começou a gritar que eu era vagabunda só porque não quis beija-lo...

 

E para finalizar esse “post-queixa”, uma historinha de doer: um amigo aluga um apartamento para outro amigo e alega que está desocupando o imóvel porque a mulher não gosta do barulho dos cachorros do vizinho. Apartamento alugado. O dono do imóvel não esconde o sorriso de satisfação - que acompanha a gíria carioca “me dei bem”. Meses depois o novo inquilino descobre que existe ratos no apartamento, que o encanamento está ferrado e que os vizinhos são completamente malucos [gritam a noite inteira uns com os outros].

 

Sem falar, claro, nos taxistas que inventam nos aeroportos que o túnel está fechado só para fazer uma corrida maior; nos botecos que sempre acrescentam mais chopes do que os consumidos na conta; nos cocos de cachorros espalhados pelas calçadas nobres da Vieira Souto e no abuso dos ambulantes com os gringos nas praias.

 

Estou no Rio há seis anos e ainda não entendi o que dá o direito a essas pessoas de agirem assim..... Com tanto desrespeito, desprezo, arrogância e afins.... Como ouvi na peça 7 conto semana retrasada “O Rio está parecendo uma fazenda asfaltada”.... Acho uma pena!!!!! Essa cidade é tão bela!!!! Tão rica culturalmente, não precisava disso....

Escrito por Mônica Montone às 13h40
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02/05/2006


:: Catixa ::

 

 

foto: Vitor Dias Ferreira www.olhares.com

 

 

Sentia o sangue quente correndo pelas veias embora suas mãos estivessem frias. Andava apressado de um lado para o outro como quem espera a notícia de um parto. Vez ou outra esquecia pendurado nos lábios um riso de canto e cantarolava uma melodia estranha para espantar a aflição.

 

Ele estava distraído quando ela apareceu pequenina e tímida, vestida de branco, com lábios rosa-chá. Antes de sua presença inundar a sala com a brancura de mil algodões doce, observou pela fresta da parede os passos inseguros dele. Ela não queria sentir dor e por alguns minutos pensou em partir sem dizer adeus - o que seria mais seguro -  mas o perfume que saia dos cabelos dele e a doçura da melodia que se desprendia de seu ventre a deixou imóvel.

 

Num repente as luzes se apagaram. Ele implorou por ajuda. Pediu aos anjos, aos santos, a nossa senhorinha do céu e aos homens de bem que por ali passavam para que a luz voltasse a brilhar. Há meses esperava por aquele encontro, precisava conhecer a tez daquela que noite após noite bailava em seus sonhos.

 

Aquele era o momento certo para fugir, desistir de tamanha loucura. Sequer se conheciam, pertenciam a mundos completamente diferentes e perto dela, ele se parecia com um Golias.

 

Apesar da escuridão, ela se deixou levar pelas batidas do seu coração – ele não sabia que ela estava tão próxima. Velas foram acesas por todo o ambiente e quando ele finalmente a viu, surpreendentemente linda, não pode conter o grito:

 

_ CATIXA!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

A pobre lagartixa caiu do teto e se escondeu atrás da porta. João chorou, correu para o colo da mãe e disse: “simiu a catixa, mamãe”.

 

No dia seguinte, João, de dois anos de idade, já havia esquecido Catixa e estava apaixonado pela Xumiga [formiga]...

 

... A paixão tem dessas coisas para quem a aceita: chega, esquenta, excita, arde, amedronta, brinca, acaricia, ilude, confunde, e depois parte, generosamente, para que outra paixão se aproxime, porque as paixões sempre passam mas o coração de quem ama fica...

 

*** Para o meu sobrinho João Pedro 

Escrito por Mônica Montone às 09h54
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Outro - Autora do livro Mulher de Minutos