Fina Flor


26/04/2006


:: Ligações perigosas ::

 

 

 

Pedro Martinelli www.pedromartinelli.com.br

 

[texto abaixo, por favor comente lá]

Escrito por Mônica Montone às 17h30
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“A ficha caiu”. Quem nunca usou essa frase na vida? Usamos para dizer que entendemos uma piada, um fora, um filme, uma situação. Mas ultimamente tenho intuído que perceber que “a ficha caiu” é bem diferente de “completar a ligação”.

 

Completar a ligação, entre outras coisas, é: ouvir o que o outro está dizendo. Parece fácil, mas não é. Em geral nós ouvimos apenas o eco do que o outro está dizendo junto aos nossos próprios ecos -como se nossas conversas estivessem sempre em linha cruzada.

 

Dependendo dos traumas, dos medos, das inseguranças e  do sentimento de rejeição de cada um às vezes fica impossível dialogar. Experimente perguntar algo tolo como “você fechou a janela antes de sair de casa?” para uma pessoa que sempre foi cobrada para ver o que acontece!!!!!!! Ela simplesmente vai achar que você está perguntando isso porque a julga incompetente e porque está cobrando algo dela e vai responder de forma agressiva e/ou ficar de mau humor o dia todo. E se você for uma pessoa que durante a vida toda foi acusada de ser autoritária e exigente demais e estiver num dia ruim, fatalmente vai se sentir injustiçada com a atitude da outra e pronto: a discussão começará.

 

Geralmente as brigas [principalmente entre casais] acontecem pela impossibilidade de escuta de cada um. Quase nunca escutamos o que outro está dizendo. Sempre colocamos interpretações em frases simples. Já repararam como os casais brigam por besteira? Porque o homem diz que não falou uma coisa e a mulher diz que ele falou, sim; porque a mulher esqueceu de pagar a conta no banco; porque o homem não escolhe um restaurante para irem e quando a mulher sugere um ele acha a escolha ruim, etc, etc, etc.

 

Por que essas coisas idiotas geram brigas monstruosas? Porque as pessoas passam a agir, pensar e sentir como se o outro fosse um inimigo oculto que sempre está tramando algo, fazendo coisas chatas de propósito só para irritar, dizendo frases cheias de ironia e daí por diante.

 

Mas isso, além de ser paranóia, é vaidade pura. Parem para pensar friamente: será, mesmo, que as outras pessoas [chefes, amigos, namorados, parentes] passam seus dias procurando uma maneira de destruir, irritar, chatear, cobrar e desmerecer você? Quer dizer, então, que você é tão importante, tão onipotente e onipresente, que todas as pessoas que te cercam querem destruir você por um motivo ou por outro?

 

Ouvir apenas o eco do que o outro está dizendo é a forma mais eficaz de sentir frustração, pois os ecos são recheados de fantasias e quanto mais nos distanciamos da realidade, mais sofremos.

 

Outro fator que impede a escuta é o desejo de ser ouvido em nossas demandas. Quando estamos sem rumo, perdidos e desolados, tendemos a achar que o outro [geralmente o parceiro] por amor e proximidade tem o dever de nos socorrer – nem que seja elogiando nossas conquistas, nosso novo corte de cabelo e nunca trazendo problemas. Só que: ninguém tem o dever de nada!!! Achar que alguém deve agir assim ou assado é a forma mais niilista de pensar [e conseqüentemente de se frustrar]. E não adianta gritar, culpar o outro, se culpar por não conseguir resolver os próprios problemas. Não adianta, também, achar que só porque o outro não cumpre o que você acha que ele deveria cumprir é porque esse outro não ama suficiente e/ou é um inimigo oculto.

 

Sendo assim, deixo aqui uma sugestão: experimente ouvir o que o outro está dizendo sem interpretar ou tentar desvendar o que está por trás de sua fala “depois que a ficha cair”. Simplesmente escute. Concentre-se na fala do seu interlocutor e não nos ecos da linha cruzada que habitam sua mente. É difícil, requer treino e concentração, mas, vale a pena.

 

 

*** Hoje estou vestida de psicóloga, rs***

Escrito por Mônica Montone às 17h29
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23/04/2006


 

Comecei a escrever aos quinze anos. Existia uma urgência estranha em mim, uma fome, um desejo de transformar emoções em palavras tal qual um alquimista transforma metais em ouro.

 

Naquela época eu não tinha pretensões literárias e nem sonhava com a possibilidade  - que acabou virando realidade – de escrever um livro. Escrevia por necessidade [foram muitas as cartas para amigos imaginários que escrevi].

 

Minhas primeiras publicações saíram em jornais do colégio e da faculdade [até hoje tenho os textos guardados com carinho]. Depois veio a Internet. Passei a coordenar o link de poesias do site Culturall e escrever matérias sobre comportamento e responder perguntas do consultório sentimental para o site Vai dar Certo...

 

...E quando menos percebi estava autografando meu livro Mulher de Minutos na livraria Argumento, numa festa linda, no Rio de Janeiro...

 

O link de poesias que eu coordenava no Culturall se transformou em

PONTO M -  Luck Veloso [responsável pelo site] e eu demoramos semanas para montar a identidade que eu tanto sonhava para aquele espaço que seria meu cantinho na Internet.

 

Hoje, posso dizer que o PONTO M é uma das minhas paixões. Amo aquele espaço como se fosse minha própria casa. Nele eu dou dicas culturais, escrevo duas colunas, indico livros, publico poemas de leitores, entrevisto artistas, etc... Além disso há entrevistas que fizeram comigo, fotos e afins.

 

E nesse mês o PONTO M conta com uma novidade: minha irmã Carol Montone, que é atriz e jornalista, passou a escrever na coluna, também.

 

A atualização do link acabou de ser feita!!! Os textos são inéditos e estão quentinhos, ainda.... Por isso convido todos vocês para um passeio por lá!!!!!

 

 www.culturall.com.br

  

Espero que gostem [caso visitem], pois faço o PONTO M com o mesmo carinho que dedico ao blog....

 

Ficarei aguardando as impressões daqueles que pousarem por lá aqui no canteiro Fina Flor!!!

 

Uma ótima semana para todos!!!!!

 

MM

Escrito por Mônica Montone às 19h35
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19/04/2006


 :: Meus Primeiros amores ::

Foto: Tatiana Paiva www.abrafoto.com.br

[texto abaixo, por favor mente lá]

 

Escrito por Mônica Montone às 12h02
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A primeira vez que o amor me assaltou eu estava distraída. Vestida de chita com presilhas nos cabelos, observei que um par de olhos azuis me fitava com algo mais que zelo. Mas  assim que percebi que outros olhos também me lambiam, me senti insultada por tamanha ousadia daquele que, um dia, quis me aprisionar em suas pupilas de maré mansa.

 

_ Quem pensas que és, para chegar em minha casa montado num pangaré desdentado e declamar-me esse amor que só deseja me aprisionar?

 

Catapleft! Com um tapa na cara pus o Testa para correr. Eu tinha oito anos.

 

A segunda vez que o amor me assaltou eu estava na mesma esquina. Já era mais esguia e tinha um par de seios maduros desabrochados na camisa branca de algodão do colégio. Beijava seus lábios anêmicos durante as tardes e sentia meu corpo derreter como barra de chocolate no verão.

 

Ele era alto, muito alto. Era feio, muito feio. Belê tinha uma beleza que só eu via.

 

Roxas de inveja as meninas roliças do colégio me deduraram. Minha mãe apareceu no beco do beijo com o cinto em punho e me arrastou para casa, de onde não me deixou sair por alguns meses. Belê tinha dezenove anos, eu doze.

 

Depois veio o amor tatuado e drogado. Quebrei todos os pratos da casa no chão quando percebi que seria impossível viver aquela paixão. Eu amava o Jarbão! E acreditava que o meu amor o salvaria. Ele era o cão de calçolão, mas ainda sim eu o amava.

 

Minha mãe me mudou de escola, me proibiu de atender telefonemas e por pouco, muito pouco, não morremos, ambas, de desgosto. Eu tinha treze anos, Jarbão 26.

 

Aos catorze  perdi a virgindade. Decidi que seria assim. Acordei, me olhei no espelho, achei que já tinha uma quantidade razoável de pentelhos, liguei para o meu namorado e um pumba... Sem aptidão nenhuma e desejo algum, passamos a tarde lutando para achar o jeito certo – ele também era virgem. Não teve dor, nem prazer. Eu tinha catorze anos, ele dezesseis. Namoramos por dois anos.

 

Outro amor veio e outro e outro e outro. Fui amante de homens feios, confesso. Amei homens bonitos, ricos, pobres, mais velhos, pagodeiros, pais de santo e intelectuais... Amei demais...

 

Até que descobri que nunca tinha amado alguém realmente. Que o que eu pensava ser o amor era apenas uma busca, um desejo de sentir-me desejada... Uma fome estranha de provocar taras... Um jeito torto de pedir socorro, de implorar para que alguém me desse uma alma, um contorno, um sentido, uma identidade.

 

Hoje, com idade suficiente para rir disso tudo, aprendi que é preciso morrer para amar e ser amada imensamente e que o amor [e o contorno, a identidade ] que eu tanto buscava sempre esteve ali, mergulhado em minhas vértebras.

 

 

Escrito por Mônica Montone às 11h58
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16/04/2006


:: Rotas e trilhas ::

 

 

Foto: Mônica Montone em "trago essa rosa, para lhe dar"

 

 

Estou cansada de andar por trilhas. Quero um caminho certo, mesmo que o destino seja incerto. Os atalhos que sempre peguei me trouxeram coisas ótimas, pessoas maravilhosas e gratas surpresas, mas cansei dessa aventura. Cansei de acampar no meio do caminho porque o pneu furou ou porque o carro ficou atolado numa estrada de terra.

 

Eu tô querendo seguir uma rota qualquer. Mostrar os documentos numa blitz, comer arroz duro em restaurante de posto de gasolina, fazer xixi em banheiros imundos, mas, tendo pelo menos a segurança de um solo plano e a idéia de um destino.

 

Não me importa aonde chegarei – se uma metrópole agitada como São Paulo ou se uma pequenina cidade do interior de Minas. Eu quero chegar a algum lugar que não seja o acampamento improvisado ao lado do matagal que divide as trilhas que hoje percorro.

 

Quanto mais pego atalhos, mais me perco - nesses atalhos nunca existe uma alma santa capaz de nos indicar a saída e quando menos percebo estou de volta ao ponto de partida. Sem falar que, as noites são sempre mais escuras e assustadoras nesses desvios.

 

Eu preciso de um lugar para amarrar minha rede. Preciso saber que ali, logo adiante, terá um posto onde poderei matar a minha sede. Se aos quinze anos eu fui um pássaro suicida rumo ao sol, agora quero poder gozar de uma sombra fresca. Quero poder escrever meus versos e ganhar um quinhão por eles, mesmo que seja uma merreca que assegure, apenas, o pão de cada dia.

 

É por isso que decidi finalmente revisar meu romance e partir em busca de uma editora. É por isso que finalmente copiei um disco meu e entreguei para uma banda avaliar. É por isso que finalmente resolvi reescrever meu monólogo. É por isso que finalmente resolvi me dedicar mais à produção do programa Palavrão [primeiro programa de poesia da TV brasileira, Canal Brasil]. E por fim, é por isso que decidi atualizar o Fina Flor com menos frequência daqui pra frente [já que estarei com o tempo correndo atrás dos meus calcanhares]. Mas estarei aqui e aí, sempre.

 

Os atalhos foram importantes para que eu conservasse a alma livre e experimentasse sensações diversas, mas, é chegada a hora de seguir uma rota. Qual será ela? O tempo dirá....

 

Essa rosa em minha boca?! É para lhe dar!!! Para dar a você, amigo oculto, que me visita todos os dias e me enche de coragem. Essa rosa em minha boca é para agradecer as mais de 5000 visitas em menos de quatro meses. Essa rosa em minha boca é para dizer que é um prazer receber você aqui no Fina Flor! E para guiar sua volta pelo aroma, afinal, pousos sinceros e perfumados são e sempre serão bem vindos por aqui.

Beijos e até o próximo pouso,

MM

Escrito por Mônica Montone às 21h48
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13/04/2006


:: Abram suas asas ::

 

 

 

foto: Hugo www.olhares.com.br

 

 

Nunca consegui enxergar Jesus como um homem de cabelos longos, barba e olhos verdes. Nunca consegui visualizar sua imagem na cruz. Não sou de freqüentar igrejas e não tenho uma religião exata – acredito em tudo e em todos os santos e deuses até que me provem o contrário, inclusive, no revolucionário Jesus.

 

Talvez seja por isso que a páscoa, para mim, esteja intimamente ligada à imagem  do pássaro Fênix que renasce das cinzas  - ou nasce dentro de um ovo [que pode ser de chocolate, ou não, rs*]. Aliás, gosto mais de abrir os ovos do que de come-los -  a abertura dos ovos me traz uma sensação de novidade: o que pode haver dentro de um ovo senão a vida vestida de mil possibilidades?

 

Sempre que a páscoa se aproxima sou compelida a fazer uma visita ao meu passado e depois uma faxina. Abro caixas de sapato com bilhetes de antigos amigos e namorados, revejo fotos envelhecidas, retiro do armário roupas que não servem mais, escuto discos esquecidos, leio poemas amarelados. Vou morrendo e renascendo em cada leitura, cada lembrança, cada desejo. E em cada momento que morro e renasço, sinto que estou, de alguma forma, seguindo a sabedoria de Jesus.

 

Afinal, não era isso que ele pregava? A evolução!? Certamente não era seu desejo - como homem de bem e visionário - que tanto sangue escorresse em seu nome, como não era de seu desejo ver pessoas enclausuradas em culpas que sequer entendem.

 

No livro O olho do furacão, do filósofo brasileiro Murilo Nunes de Azevedo, o autor afirma que Jesus pregava a filosofia budista ensinada por seu padrinho João Batista através de parábolas. Daí, talvez, resulte o “conheça a ti mesmo” e tantos outros ensinamentos que Murilo esmiúça com cuidado e precisão no livro.

 

A idéia da ressurreição talvez não seja outra coisa senão a mensagem de que devemos morrer para nascer verdadeiramente e morrer, nesse caso, significa abandonar velhos hábitos, crenças, culpas e dores e que não nos levam a canto algum.

 

Não há vida sem mortes! Não há curativo se não houver cortes. Não há evolução se não houver metamorfoses.

 

E como dizia o poeta Vinícius de Morais: “Hoje a noite é jovem; da morte, apenas nascemos imensamente...

 

Bom renascimento para todos vocês!!!! Abram suas asas e feliz páscoa!!!

Escrito por Mônica Montone às 14h33
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11/04/2006


:: Quem não pode com a mandinga não carrega patuá ::

 

 

foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

 

“Eu sou um menino / minha mãe soube me educar / quem anda em terras alheias / pisa no chão devagar”... [mestre de capoeira Suassuna – música para lutar maculelê]

 

Eu tinha dezesseis anos quando comecei a praticar capoeira e na época em que entrei para o “esporte” [que para mim sempre foi uma arte!] nunca imaginei que passaria a dever tudo o que sei a ela. Como sou dada a paixões, fiquei deslumbrada com aquele mundo de pessoas com pés no chão e roupas brancas, cercadas de atabaques, palmas, cantoria e berimbaus. Treinava todos os dias, aprendi a tocar todos os instrumentos e virei a mascotinha da academia. Há seis anos deixei de treinar por uma questão muito simples: cumplicidade [mudei de cidade].

 

Foi na Cordão de Ouro [grupo onde eu treinava] que conheci o real sentido da palavra “família” [acreditem se quiserem]. Sim, porque foram meus companheiros de roda que me ensinaram os símbolos e códigos da vida social e não a escola e/ou minha própria família. Eu era rebelde demais para perceber os sinais que meus pais transmitiam em casa.

 

Lembro-me, por exemplo, que certa feita eu apanhei muito de um amigo queridíssimo na roda. Não entendia o porquê da sova!!! Chorei ao final do treino. E então, meu mestre sentou-se ao meu lado e disse:

 

_ Você apanhou porque bateu em uma menina que era inferior a você! Você apanhou para aprender que apesar de ser boa existem pessoas melhores e sempre existirão e que não é batendo em alguém inferior que você vai se tornar superior.

 

Esse tipo de ensinamento, junto a algumas canções como: “oi tátátá, quem não pode com a mandinga não carrega patuá”; “sentir na boca, toda gosto do perigo, sorrir para o inimigo e apertar a sua mão”; “não desprezar os mais jovens, nem para os mais velhos rebaixar”... Essas canções, os ensinamentos e o não dito [a troca de olhares na roda que indica quem é rival de quem, a sutileza de saber entrar e sair do jogo na hora certa e nunca tirar um mestre do jogo] me deram as ferramentas que eu precisava para conviver de forma lúcida e lúdica na roda viva da vida.

 

Depois da capoeira, todas as esferas me pareceram muito similares: a faculdade, o trabalho, a blogosfera, “a galera”. Depois da capoeira, eu aprendi a esquivar, a atacar e a me defender na hora certa e isso, pai e mãe nenhum, escola nenhuma, é capaz de ensinar... Evoé!!!

 

“O mundo de Deus é grande e cabe numa mão fechada / O pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada /  Noite de escuro não serve para caçar de madrugada / Caçador dá muitos tiros e de manhã não acha nada”... [música de mestre Suassuna].

 

Escrito por Mônica Montone às 14h14
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10/04/2006


:: Entre paetês e purpurinas ::

 

 

 

 

 

Todos se preparavam para a gravação da última cena. Os produtores já tinham providenciado o champanhe e toda a equipe acompanhava o desfecho da história [maquiadores, assistentes, camareiras, técnicos e afins]. Assim que o diretor gritou “corta” uma euforia tomou conta de todas as pessoas. Choro, abraços, lágrimas, gritos. Finalmente o trabalho de meses a fio chegava ao fim.

 

A última cena envolvia lágrimas. De dentro de um castelo indiano – a história se passava na Índia – duas meninas observavam, através de uma janela, o final de uma tragédia. Palmas, palmas e mais palmas. As duas conseguiram realizar suas funções com brilhantismo.

 

Embora todos estivessem comemorando as duas meninas não se juntaram à equipe. Ambas contemplavam o cenário com tristeza. Uma delas tentava descolar da parede alguns objetos brilhantes – queria uma recordação daquele momento. A outra foi mais longe... Pediu para os figurinistas as roupas que usou durante a trama. Nenhuma delas queria abandonar o setting de filmagem, tampouco a ilusão indiana.

 

As luzes começaram a se apagar, os faxineiros iniciaram a limpeza, mas elas continuavam imóveis, examinando o cenário, pensando no que poderiam levar para casa daquela experiência além de sensações.

 

A garota que havia arrancado da parede alguns objetos brilhantes, num repente, os jogou no chão. Limpou a maquiagem com raiva e começou a quebrar todo o cenário enquanto a outra tentava levantar as paredes do castelo imaginário. Uma destruía e a outra tentava reconstruir. Começaram a brigar. Rolaram pelo chão sobre paetês, tapas, purpurinas e panos de seda... Até que as luzes se acenderam... O sol nasceu e eu acordei.

 

“Meu inconsciente podia ter sido mais experto” – pensei enquanto me espreguiçava na cama. Duas meninas num castelo? Duas meninas brigando!? Uma tentando reconstruir o castelo e a outra tentando destruir!? Gravação de um filme!?

 

Ora, ora... Nada mais óbvio, não? Razão e emoção lutando... A primeira para destruir uma mentira e a segunda para manter a ilusão.

 

Ainda bem que no palco da minha vida eu sou a diretora das minhas cenas e escolho em que momento devo trocar o elenco, a trilha sonora e o cenário... E escolho, também, para quem deve ir o Oscar...

 

E o Oscar vai............................ Para a menina que destruiu o cenário, se despiu da personagem e saiu ilesa da briga, pronta para um novo papel. Afinal, é preciso coragem para abandonar uma ilusão....

 

 

** Por falar em Oscar, fui assistir Crash - vale a pena, é um filmão, mesmo.

Escrito por Mônica Montone às 14h15
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07/04/2006


 

 

foto: Nokas www.olhares.com.br

 

:: Histeria ::

 

 

Berta sorria para espantar o medo de se expor

Berto sorria para provocar o medo de Berta de se expor

Berta dizia que não diria tudo a Berto

Berto dizia que dizia tudo a Berta

Berta fingia acreditar que Berto dizia tudo

Berto fingia acreditar que Berta acreditava em tudo o que ele dizia

Berta dizia somente o que acreditava convir a Berto

Berto acreditava que dizia somente o que convinha a Berta

Berta falava de estradas

E como um eco, Berto falava de trilhas

Berta falava de catapultas

Berto falava de armadilhas

Ambos falavam a mesma língua

Ambos fingiam desconhecer o que cada um dizia

Ambos fingiam não dizer nada

Enquanto os gestos os traiam

Berto queria Berta

Berta queria Berto

Mas ambos se perderam no deserto da sedução

E o que restou daquela noite foi apenas a distancia

Provocada pelo reflexo do espelho

E pelo jogo de palavras vãs

 

** Inspirado no livro do psicanalista Ronald Lang, Laços

Escrito por Mônica Montone às 16h19
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06/04/2006


:: Pedras nossas de cada dia ::

[texto abaixo, por favor comente lá]

Escrito por Mônica Montone às 23h38
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_ Por que você me trouxe para cá?

 

_ Porque eu precisava me sentir culpado por alguma coisa – responde o rapaz enquanto carrega suas pedras.

 

_ E por que temos que ficar levando essas pedras de um lado para o outro se elas não serão usadas para coisa alguma?

 

_ É um plano para nos enlouquecer.

 

Ouvi esse diálogo ontem, na peça Bent. Claro que outros diálogos e cenas me marcaram, mas esse, em especial, ficou reverberando em mim por algum tempo.

 

Bent é uma peça que retrata a perseguição nazista aos homossexuais. Escrita nos anos 70 por Martin Sherman,  fez sucesso nos países onde foi encenada com Richard Gere  no papel de um gay e em 1997 foi adaptada para o cinema com uma participação especial de Micke Jager  interpretando um travesti. 

 

A primeira montagem brasileira de Bent se deu em meados dos anos 80 com José Mayer no elenco e a outra está em cartaz no Rio de Janeiro, sob a direção de  Luiz Furlanetto, numa montagem comovente, bem humorada e tecnicamente bem apurada [vale a pena conferir].

 

O diálogo acima me pegou pelas veias porque sempre olho as palavras como uma teia de significados. Então, enquanto assistia a cena em questão, fiquei pensando que aqueles dois homossexuais no campo de concentração carregando pedras poderiam perfeitamente ser “o que somos” e “o que gostaríamos de ser” . O diálogo entre essas duas entidades que coabitam nossa mente não seria muito diferente:

 

O que gostaríamos de ser: _ Por que você me trouxe para cá?

O que somos: _Por que eu precisava me sentir culpado!

O que gostaríamos de ser: _ E para que temos que carregar essas pedras [traumas de infância, medos, ressentimentos, culpa, inseguranças, vergonha, desilusões, auto-cobrança, etc] de um lado para o outro se elas não serão usadas para coisa alguma?

O que somos: _ É um plano para nos enlouquecer.

 

A diferença, nesse caso, é que nenhum nazista nos mandou carregar “essas pedras”!!! A diferença é que nós somos nossos próprios nazistas!!! Nós nos enlouquecemos sozinhos e nem percebemos isso –geralmente buscamos um general qualquer para culpar [patrão, pai, irmão, emprego, mãe, amiga, namorado, etc].

 

Ao sair da peça fiquei pensando nas pedras. Fui dormir pensando nas pedras. Acordei exausta, como se as tivesse carregado durante o sonho e enquanto escovava os dentes e mirava minha face amarrotada no espelho percebi que era chegado o momento de transformar minhas pedras em meros adornos de um belo canteiro. Sei que não será fácil, mas estou disposta a tentar.

 

** Bent está em cartaz no teatro do Leblon, na sala Fernanda Montenegro.

Escrito por Mônica Montone às 23h37
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04/04/2006


:: Relembrando Velhas lições ::

Foto: Ruy Vaz www.olhares.com.br

[texto abaixo, por favor comente lá]

 

Escrito por Mônica Montone às 14h54
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Senti vontade de chorar naquele momento, mas me contive. Motivo? Não podia borrar a maquiagem... Devia estar super bonita” para a gravação de um programa que leva tal nome.

 

Caí da cama às sete horas da manhã - duas horas antes da gravação para aliviar o inchaço dos olhos – e enquanto a produção não chegava para me buscar coloquei a leitura dos meus e-mails em dia.

 

Viver realmente é estar fadado ao perigo, ou, como dizia o fictício Nietzsche de Irvin Yalom, “viver em segurança é perigoso demais”. É perigoso viver com segurança porque nos perdemos de nós mesmos no conforto dos dias e tão perigoso quanto se expor ao sabor dos acontecimentos.

 

Eu não podia imaginar que minha doce irmã tivesse me enviado um e-mail essa manhã com palavras sobre nosso avô que partiu há poucos anos. Assim que li o título do e-mail “sobre o vô” pensei: “não vou abrir, com certeza vou me emocionar, depois eu leio”... Mas acabei não resistindo [nunca resisto a uma emoção!!] e assim como previ, fiquei emocionada.

 

Ela narrava todos os ensinamentos que nosso avô nos deixou – um homem encantado e encantador. Um homem que nos ensinou o valor dos sonhos e da sinceridade. Um homem que não  lamentava a falta das coisas, quaisquer que fossem, mas criava suas coisas e tinha seu jeito próprio de faze-las. Depois da grandeza do que li, qualquer tentativa de falar dele será em vão. Vejam como não estou mentindo:

 

“...Ele era torneiro mecânico. O torneiro mecânico mais eclético que conheci na vida. O seu torno era uma máquina de sonhos. De um simples parafuso, a um objeto, invenção, ele brincava com seu ofício e espalhava seu talento aos quatro cantos. Partilhava da idéia de Fernando Pessoa de que para ser grande temos que ser  inteiros e ao pé da letra colocava “o quanto era  no mínimo que fazia” como sugeriu o poeta.  Para seu Toninho não havia limites. Autodidata e cheio de outras muitas habilidades, ele era político, artista, cozinheiro, mesmo que fosse de batatas doces, mas tinha o seu jeito de fazer as coisas. Ele era mais que tudo isso um educador. Seu talento para lidar com crianças era inegável.

 

As crianças confiavam nele. Todas. Principalmente as portadoras de necessidades especiais , que ele sempre considerou, as mais inteligentes, sinceras e de fácil trato. Sabe por que? Porque ele entendeu que ninguém quer pena ou proteção. Que as pessoas querem compartilhar. E era assim que agia. Ele ensinava e aprendia com todo mundo...

 

... Foi também com seu Antônio que encontrei a definição mais sensata de espiritualidade. Nunca mais olhei da mesma forma um pé de alface depois de escutar dele que Deus está em tudo. Que um pé de alface é Deus porque é vida. Porque é movimento. Porque evolui de uma semente para uma obra de arte comestível. Ele vivia cercado de Deuses. A terra era uma de suas deusas preferidas, talvez porque ele próprio sem saber fosse um semeador de vida”... [Carol Montone]

 

Durante muito tempo de minha vida eu me lamentei pelo fato de não ter “aproveitado” meu avô como minhas irmãs mais velhas. Ele se foi justo no momento em que eu estava saindo da adolescência e portanto, apta a escuta-lo e aprender com ele. Porém, hoje, ao ler as palavras da minha irmã, entendi que a essência dele foi capturada por mim, apesar da minha agitação adolescente... E entendi isso exatamente porque não me lamentei e não me culpei por ter contido o choro: o meu momento presente, o trabalho que devia realizar pedia que eu estivesse com a maquiagem intacta e eu o respeitei.

 

Eu aceitei minha condição, a condição daquele momento... E no final das contas era isso que meu querido avô, o seo Toninho, tentou nos ensinar a vida toda... “para ser grande é preciso ser inteiro e se dar por inteiro, mesmo nas mínimas ações"... E foi isso que fiz, me dei por inteiro a uma pequena entrevista!!!! Salve seo Toninho!!!!

Escrito por Mônica Montone às 14h52
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03/04/2006


:: Museu de novidades ::

 

 

 

Os assuntos se esgotaram ou sou eu que tenho percebido os momentos e seus contornos como um quadro sem vida ou uma música sem melodia? Quem, onde e quando se estabeleceu que certas discussões precisam ser “pensadas”? Quem determina isso? Quando um assunto fica démodé?

 

Não sei, mas ando com a sensação de que estamos tentando descobrir “a cor do cavalo branco de Napoleão” dia após dia - principalmente os artistas e aqueles que se julgam pensadores e, portanto, formadores de opinião.

 

Quantas peças de teatro eu ainda vou ser obrigada a assistir com o nó: não existe completude, não existe segurança, nem felicidade plena; não existe liberdade, a liberdade é apenas um ideal a ser alcançado; o dinheiro está corrompendo o mundo, as religiões e a mídia bestializam o homem; todos querem seus 15 minutos de fama, o amor não é antídoto contra a solidão...?

 

Quantos textos eu ainda vou ser obrigada a ler sobre essas questões? E quantos ainda hei de escrever sobre elas??? Quantos filmes cult eu ainda terei que assistir com a mensagem: “a vida é aquilo que acontece enquanto você tenta desesperadamente satisfazer seus desejos”?

 

Se a arte imita a vida, e/ou, a vida imita a arte, então a vida é isso: um grande museu de novidades?

 

Na realidade, o que me causa estranhamento não é a percepção de que nada se cria, tudo se copia e/ou se recicla no campo das artes, mas a idéia de que ainda vivenciamos os mesmos dramas, as mesmas questões, as mesmas obsessões e quiçá os mesmos vícios que há milênios foram representados no teatro grego.

 

Quer dizer, então, que apesar de termos descoberto a cura para várias doenças, de estarmos mandando foguetes para o espaço, de estarmos prevendo a chegada de tempestades e furacões, nós ainda estamos onde tudo começou???????? No drama do significado da vida e da própria existência? No drama do desejo? No drama do convívio?

 

Esse fim de semana eu fui assistir uma peça de Brecht. O tema? “Saciar o desejo é o mesmo que morrer”....

 

Quando sai da peça, me senti exatamente como escreveu o jovem Werther [Goethe] para um amigo:  “Você está perguntando se é para me enviar os meus livros? Meu caro, pelo amor de Deus, mantenha-os longe da minha vista! Não quero mais que o meu coração seja guiado, encorajado ou estimulado por eles, ele sozinho já se inflama o bastante. Precisava de um canto que me embalasse e encontrei-o em toda sua plenitude no meu Homero”...

 

... E fui dormir humilhada pela minha incapacidade de transcender a tudo isso e ainda ser coadjuvante dessa tragédia grega que atravessou o tempo e  recebe o nome de “vida”.

Escrito por Mônica Montone às 01h11
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