Fina Flor


31/03/2006


:: Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é ::

 

 

foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

 

É muito fácil escrever e/ou defender a idéia de que devemos aceitar as diferenças alheias, bem como respeita-las. Agir dessa forma também não é complicado – basta um pouco de diplomacia e compaixão. O difícil é não sentir vontade de vomitar nos pés de algumas pessoas extremamente opostas a nós. Eu, por exemplo, vivo engolindo vômitos imaginários. Não porque sou uma narcisa de carteirinha e gostaria que as pessoas fossem iguais a mim. Longe disso. Tem dias que nem eu mesma me agüento...

 

Mas, por exemplo, eu não agüento gente careta!!!! Quem é essa gente? Acho que são aquelas pessoas que sustentam um ar de “ainda vencerei”. Aquelas que sempre agem de acordo com o que os outros esperam delas. As que não arriscam e se contentam com pouco... Ah, e claro, as que se vestem de acordo com os catálogos das lojas, nunca mataram aula, nunca fizeram uma loucura de amor, nunca tomaram porre e vomitaram na manhã seguinte e o mais importante: nunca ousaram ser diferente daquilo que os outros queriam que elas fossem.

 

Eu respeito essas pessoas, mas não admiro. Claro que entendo que cada pessoa é singular, tem sua história, seus medos, inseguranças e afins. Assim como compreendo que cada família é um universo cheio de signos e símbolos próprios e que cada ser em si os absorve como pode.  Mas será que elas entendem isso?  Experimente tomar um porre na frente de algumas dessas pessoas caretas! Ou contar-lhes uma locura de amor!!!  Bááá... Você ficará para sempre estigmatizado como um louco inconsequente.

 

Geralmente elas são certinhas por fora, mas desmazeladas por dentro!!!! Suas casas são perfeitamente arrumadas [ na maioria das vezes sem nenhum toque pessoal, parecem lojas de departamento], as roupas sempre bem passadas e os cabelos sempre limpos, cheirosos e escovados. Porém, vinte de minutos de conversa com elas é o suficiente para perceber que elas não vivem, mas, sobrevivem ao anseio de serem perfeitas e aceitas.

 

Será que elas nunca cansam dessa fantasia? Será que realmente são felizes com essa idéia absurda de controle absoluto das coisas [a chamada perfeição]? Se são felizes, por que desmoronam frente a uma pequena decepção amorosa ou profissional e uma crítica?

 

Não, eu realmente não consigo conter o enjôo diante dessas pessoas . Mas, seguirei as respeitando, sempre, pois como diz o Caetano "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é"... Apenas não aceitarei, NUNCA, que me "olhem como se a polícia andasse atrás de mim"...

Escrito por Mônica Montone às 15h09
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30/03/2006


:: Carta à moda antiga ::

 

 

Foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

 

Meu amor,

 

Há muito não escrevo. Nada diferente aconteceu nesses dias que se passaram. Meus pensamentos continuaram avançando os muros dessa casa e, como sempre, não tive a preocupação de freia-los.  

 

Aqui em casa andam dizendo que mudei, que estou mais serena. Atribuem essa mudança ao sentimento que alimento e nutro por ti. Meus esforços são para convencê-los de que não estou melhor em função desse amor, ou, como dizem, “por causa de você”. Se estou melhor é “para você”. Não foi nossa relação que me despertou para vida e sim o despertar para vida que me possibilitou viver essa relação. As pessoas não entendem...

 

Quero ser boa o suficiente para amar e não amar para ser boa o suficiente. Será que ao menos você, meu querido, consegue entender isso?

 

Tenho sentido muito a sua falta. Não encontro em ninguém esse dom de perceber o universo de possibilidades que transpira no avesso de cada momento - é por isso que te amo tanto e sinto tanto a falta da tua presença.

 

 As cartas não me bastam! Preciso do teu cheiro, do gosto da tua saliva, de tuas mãos que parecem tocar minhas virtudes. Preciso de tudo isso para ter a noção exata de que você é real e não mais um sonho que criei.

 

Tenho medo que você morra!  Nunca algo me pareceu tão real como o amor que sinto por ti, bem como sua simplicidade. A relação que temos transcende a qualquer conceito existente de união – não somos vulgares, como dizia Fernando Pessoa [ somente hoje entendo o que o poeta queria dizer]. Nós escolhemos viver esse amor e quando fizemos isso, através de nosso livre arbítrio, chegamos à transcendência das próprias emoções.

 

Isso tudo me encanta! Por isso tenho medo que você morra. Nas histórias “de sempre” tudo é eternizado por um beijo.... Mas essa sensação de realidade que respiro me faz temer sua morte, pois não há nada mais real na vida que a própria morte.

 

Penso em  visitá-lo quando o verão chegar. Certamente as estradas estarão melhores e mais seguras. Seja cauteloso em suas andanças e boa sorte em sua profecia. Até breve.

 

Com amor e saudades,

 

Sua pequena

Escrito por Mônica Montone às 13h33
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29/03/2006


:: Dia de festa ::

 

 

Era noite de natal. Todos estavam em festa. E o amor transbordava por todos os poros, janelas e frestas. Mas de repente uma onda gigante chamada Tsunami surgiu e matou 280 mil pessoas na Ásia. E nós, que acompanhávamos o desespero daquelas pessoas pela TV, não imaginávamos que um dilúvio semelhante quase nos afogaria.

 

Foram mais de vinte dias de lágrimas – pela primeira vez na vida eu entendi quando, onde e por quem devemos chorar por um homem. Ver meu pai plugado em fios de esperança e antibióticos numa UTI foi o pior pesadelo que já tive.

 

Mas hoje só tenho motivos para chorar de felicidade: é aniversário do meu pai e felizmente ele está ao alcance dos meus dedos. Por isso, deixo registrado aqui no Fina Flor todo o meu carinho, gratidão e amor por ele: parabéns, bob pai!!!! Que seus dias sejam sempre invadidos pelos melhores sabores e aromas...

 

 

*** Segue abaixo um poeminha que fiz para o meu pai e que está no meu livro Mulher de Minutos [não pude postar aqui por falta de espaço] 

 

 

Escrito por Mônica Montone às 14h25
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Pai

 

 

Você,

Que de mim fez nascer uma mulher

Com palavras duras

E ternura no olhar

Quem é você?

Por que oculta o menino que galopa em seu cavalo de madeira

Dessa maneira?

Temo por sua correria heróica

Pelo seu anseio de realizar sonhos alheios

Nunca soube como pisar com pés de anjo em seu coração!

Quando criança, imaginei que me salvaria do dragão

Hoje, já não espero que me salve

Sei que é um ser humano

E simplesmente o respeito e

o amo!

Escrito por Mônica Montone às 14h24
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27/03/2006


:: Também morre quem atira ::

 

 

 

foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

 

Não posso entender a miséria humana. As pessoas reclamam tanto da miséria das ruas, das favelas, dos que não tem o que comer, da violência... Mas será que as coisas não estão dessa maneira exatamente por que a pobreza de espírito dos que podem transformar essa situação é maior que o próprio universo?

 

Não, não estou falando dos Delúbios, Paloccis e Valérios da vida. Estou falando de gente comum. Gente que escova os dentes, toma banho e passa fio dental. Gente que navega na Internet, trepa, come, dorme. Gente que sonha, chora, trabalha, vai e volta para casa. Gente que paga suas contas ou dá calotes. Gente que faz fofoca, gente que mente.

 

Toda essa gente é responsável, sim, pelo caos e pela miséria da nossa sociedade. Já dizia o pequenino menino com sua rosa que “somos todos responsáveis por aquilo que cativamos”.

 

Estou escrevendo isso porque acabei de ler uma coisa que me deixou perplexa. Vi no blog da Roma [uma blogueira que visito todos os dias e adoro o teor de seus textos; endereço ao lado] um comentário irônico, assinado com o meu nome. Não posso imaginar o que leva uma pessoa a perder o seu tempo com esse tipo de atitude. Então, gostaria de deixar uma coisa bem clara:

 

Eu sou uma pessoa que preza, cultiva e estimula a paz. Jamais em minha vida eu entraria no blog de alguém para falar mal da pessoa ou de seus textos. Não faço isso na vida real, nem na virtual. Quando visito um blog que não me diz muita coisa, simplesmente vou embora e não comento [pode não servir para mim, mas para outras pessoas pode servir, há espaço para tudo nessa vida].

 

Portanto, amigos, gostaria de dizer que caso isso tenha acontecido em outros blogs [comentários irônicos, críticas grosseiras, etc e tal] com certeza não foi escrito por mim.

 

As pessoas que me visitam, as quais aprendi a sentir carinho e admiração, sabem perfeitamente que tenho cuidado para escolher as palavras, que gosto de tratar as palavras com afeto, que procuro tateá-las com a mesma doçura que as confeiteiras decoram seus bolos.

 

Realmente não consigo entender porque algumas pessoas usam nosso nome de maneira leviana, nem porque deixam recados anônimos e recalcados em minha caixa de comentários. Não estou obrigando ninguém a ler minhas mazelas e paixões. Lê quem quer.... Inveja? Tô cansada de justificar a pobreza humana das pessoas com essa palavra. Não é possível que seja somente isso!!!!!!!! Alguém tem uma outra sugestão?

 

O que essas pessoas não sabem é que, como diz a música do O Rappa, “também morre quem atira”... É a lei inevitável da causa e efeito do universo. Se elas soubessem disso, talvez se preocupassem mais em plantar para colher e não atirar para depois morrer com a própria fumaça do gatilho.

 

E a vocês, pessoas, pessoas queridas com P maiúsculo... "Gentes" finas, elegantes e sinceras que vez ou outra pousam aqui no Fina Flor, deixo meu carinho e gratidão pela delicadeza, amizade, troca de idéias e ideais.  Obrigada, meeeesmo!!!!  

Escrito por Mônica Montone às 19h48
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:: Tudo vale a pena se alma não é pequena ::

Foto: Fernando Grilo www.fernandogrilo.com.br

[Texto abaixo, comente lá, por favor ]

 

Escrito por Mônica Montone às 00h34
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Ainda não consegui descobrir se gosto dos encontros literários que acontecem no país ou se detesto. Sempre me faço essa pergunta quando participo de alguns e nunca chego a uma resposta satisfatória.

 

Sei que gosto porque tenho a oportunidade de reencontrar amigos queridos e excelentes escritores como Affonso Romano de Sant´Anna e Ivan Junqueira; porque tenho a chance de me aproximar e conhecer um pouco mais poetas como Gilberto Mendonça Teles, Antônio Cícero e Alice Ruiz e porque sempre acabo descobrindo pessoas interessantes. E sei que detesto porque não tenho estômago para os aspirantes ao posto de “poetas do primeiro escalão” e para a politicagem que sempre emerge em alguma mesa de bar ou café da manhã.

 

Acabo de voltar do  Festival de Poesia de Goyaz. A cidade histórica parece exalar o aroma da poesia em todas as suas casas tombadas de janelas coloridas e ruas com pedras tortuosas. O casarão de Cora Coralina ainda tem cheiro de doce, embora o aroma não esteja mais no ar. O rio vermelho que corta a cidade parece guardar em si o ritmo dos poemas mais singelos... Como é bela a cidade de Goyaz! Bela e quente! Muito quente!

 

Foram quatro dias de festival. Debates, mesas redondas, oficinas, recitais de poesia. Muita coisa interessante foi dita e muita besteira, também... Houve troca de chumbo grosso entre alguns intelectuais, mas todos sobreviveram.

 

Perguntaram a Gilberto Mendonça Teles como ele se sentia no posto de “medalhão da poesia” e ele, sempre bem humorado, respondeu: “Você disse medalhão ou merdalhão? Não entendi direito!!! Se bem que, não vejo muita distinção entre ambas as classificações”...

 

Eu, que estou apenas dando meus primeiros passos nessa jornada, ouvi tudo com muita atenção!!! Aprendi muito!!! Mas como tenho um bicho comichão que não me deixa sossegar e ficar quieta no meu canto, resolvi organizar, junto ao poeta Claufe Rodrigues, um recital de poesia “extra oficial”.

 

Passeando pela cidade numa noite fresca acabei tropeçando num bar elegantérrimo - com ares de bistrô italiano e um palco para lá de poético [com decoração a la comédia dellarte] - e a partir de uma conversa com os poetas Carlito Azevedo e Claufe Rodrigues tivemos a idéia de realizar no lugar uma noite de poesia. Propus para dona e ela topou!

 

Convidamos todos os poetas presentes para participarem. Convidei um pessoal de Araraquara para tocar [alunos de Letras que viajaram quinze horas de carro para assistir ao evento] e ao lado do poeta Claufe Rodrigues iniciamos o recital. Eu cantei, falei meus poemas, pintei e bordei!

 

A casa estava cheeeia, muito cheia. Foi uma noite mágica. Nem todos os poetas quiseram participar [alguns se sentiram afrontados com a nossa “petulância”], mas, mesmo assim a noite da poesia no Café Realeza foi um sucesso. A poesia e as melodias dos estudantes de Letras que conheci por acaso [um feliz acaso, diga-se de passagem!] reverberaram noite adentro...

 

Durante a volta, enquanto sobrevoava o Rio, pensei na pergunta que sempre me faço e mais uma vez não consegui responder! As únicas certezas que tive foram: 1) ano que vem não serei convidada para o festival [uma vez que não fiz políticas e "passei por cima das autoridades locais"]; 2) a inveja é uma praga; 3) Fernando Pessoa tinha razão quando dizia que "tudo vale a pena se a alma não é pequena"...

 

 

Escrito por Mônica Montone às 00h32
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22/03/2006


::Ás vezes é preciso arriscar ::

[Texto abaixo, por favor comente lá ]

 

Escrito por Mônica Montone às 11h51
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Achei que vomitaria na minha primeira aula de Lacan. Não pelo filósofo francês, mas pela presença um tanto quanto estranha do meu professor. Cabelos grisalhos e esticados a la Ravengard da novela Que rei sou eu? [se lembram desse personagem?] e uma estranha mania: cutucar a unha do dedão da mão esquerda [se não me falhe a memória] a ponto de criar um buraco roxo no dedo.

 

Eu não conseguia levantar a cabeça e olhar para ele e conclui que jamais conseguiria assistir as aulas, então, peguei minha bolsa e sai intempestivamente da sala logo no primeiro dia. Enquanto caminhava em direção a DAR, onde trancaria a matéria, um colega de classe me seguiu. Outra figura estranha!!! Ele usava um sobretudo de lã, preto, em pleno verão carioca e fumava sem parar – um típico estudante FRANCÊS de Lacan. Ele me convenceu a não trancar a matéria.

 

Quatro meses de aulas e em nenhuma delas eu levantei a cabeça para olhar o professor! Assisti às aulas como os cegos: absorvendo pela audição. O engraçado é que a experiência me deixava numa espécie de transe. Além disso, acabei aderindo ao grupo dos “estudantes franceses” e após as aulas ficávamos duas, três, quatro horas discutindo filosofia no café da PUC – só não usei o sobretudo!

 

O professor era genial! Um dos maiores mestres que já tive!! Para sempre me lembrarei dele, ou, de sua voz, não sei. E como todos os gênios são meio loucos, ele inventou de marcar a prova, a única prova que teríamos, para o dia seguinte depois do pentacampeonato da copa.

 

Lá estávamos nós: “os estudantes franceses”, as patricinhas que lixavam a unha durante as aulas e a turma que sempre dormia nas últimas cadeiras, em plena segunda-feira, com feição de desespero. A prova tinha uma única pergunta: Fale o que você entendeu da teoria de Lacan e do Estádio do espelho.

 

Eu pensei e repensei. Olhei para o meu grupo de amigos suando dentro do sobretudo preto e dei a minha cartada, cartada esta que poderia ser fatal!

 

“ Caetano Veloso, um dos maiores compositores e poetas brasileiros soube traduzir com brilhantismo praticamente toda a teoria de Lacan em sua música “o quereres”, portanto, deixo ele falar por mim: [na prova eu coloquei a letra inteira, mas aqui, colocarei apenas o trecho abaixo]

 

 

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

 

No mais, professor, somos penta ***** ”

 

Adivinhem o que aconteceu quando fui buscar o resultado da prova uma semana depois???????????? Tirei 10! Fui a única aluna que tirou 10!

 

Eu não sabia explicar Lacan, mas tinha entendido perfeitamente o sentido “da coisa toda”.... O que já era o bastante para uma menina de vinte e poucos que nunca tinha estudado filosofia antes da faculdade - e meu querido e genial professor, claro, entendeu isso. A lição mais importante? “Às vezes é preciso arriscar”....

Escrito por Mônica Montone às 11h50
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21/03/2006


 

[texto abaixo, comente lá, por favor]

Escrito por Mônica Montone às 13h12
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:: Depois de uma briga::

 

 

Eu até pensei em te beijar

Meter minha língua entre teus dentes

Sugar tua saliva

Sentir o cheiro da tua nuca

E nunca mais te deixar

 

Eu até pensei em sacar tua roupa

Abrir o zíper da tua calça

Te beijar na intimidade

E ferir tua carne com a crueldade das minhas unhas

 

Um dia depois

Pensei em te esquecer

Nunca mais te ver

E apagar da memória os dias de glória

 

 

Minha mágoa não evapora

Tua imagem também não vai embora

E entre pesadelos e vontades

Sou invadida pelas tardes

 

Talvez seja coisa da idade

Ou somente vaidade

 

Não sei se me despeço

Se junto meus cacos

Não sei se te esqueço

Se me desespero

 

Quando tua presença não me abraça

Meus poemas ficam assim, sem graça

Sem tempero

As noites chegam negras como escravas

Chicoteiam meus desejos

Me deixam de joelhos

E esfregam em minha cara

Aquilo que não quero ver:

Eu não sei perder

 

 

Escrito por Mônica Montone às 13h12
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20/03/2006


:: Escrava por opção ::

 

 

foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

 

 

Algumas pessoas têm o dom de fazer a coisa certa. Eu não. É nos meus erros que me acerto, me remendo e me reitero. Também, não poderia ser diferente! Meu coração parece uma criança mimada e doente a quem devo permitir todas as vontades: alimento-o fora de hora, deixo que desarrume meus armários e jogue meus discos no chão, deixo que rabisque meus melhores livros; permito que fique acordado até o sono vence-lo e que consuma qualquer tipo de porcaria.

 

Não sei fazer a coisa certa se a coisa certa é não satisfaze-lo!! Me admiram as pessoas que conseguem! Me provocam paixão e encantamento – dizem que nos apaixonamos pela ilusão, pela crença de que o outro possui o que não temos... Será?

 

Sempre me julguei corajosa por mimar demais meu coração e por deixar que ele me tratasse como uma escrava ou uma mãe culpada e sempre pensei "há liberdade maior que a escolha da escravidão que se quer viver"?

 

... Sim, todos nós somos escravos de feitores que muitas vezes desconhecemos [ ódio, paixão, raiva, agressão, medo, insegurança, culpa, orgulho, ilusão] e quanto mais tentamos fugir deles, mais eles nos chicoteiam ...

 

Mas hoje percebo que corajosos são os que dizem "não" ao coração!! Os que arriscam a própria vida para fugir de suas sinas... Os que submetem seus corpos e suas almas às chibatadas do arrependimento...

 

Eu não sou corajosa!! Sou apenas uma escrava obediente do meu próprio coração!!! Mas posso dizer que ao final de cada expediente minha pele repousa fresca e tremula sob as mãos de alguém que a fez derreter de paixão... As chicotadas que um dia levei não foram nada perto do tanto que amei.

 

 

Escrito por Mônica Montone às 00h51
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17/03/2006


:: Crise dos 20 e poucos ::

Foto: Daniella Rosário www.daniellarosario.com.br

[texto abaixo, comente lá]

 

Escrito por Mônica Montone às 13h42
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Às vezes tenho a sensação de que estou vivendo num hiato de tempo. Sim, porque as revistas e livros de comportamento falam em demasia da adolescência, da crise dos 30, 40 e 50 anos, mas dos 20 e poucos...? O que falar dos 20 e poucos? Poucos ousam, afinal, estabeleceu-se em nossa cultura que ter 20  e poucos é maravilhoso e que é a melhor fase da vida.

 

Conversa! Ter 20 e poucos é complicadíssimo. Vejamos:

 

Um belo dia você acorda e enxerga outra pessoa no espelho. As costas estão mais largas, o quadril, também [não estou falando de gordura localizada, mas de aumento de massa corporal]. Seu rosto, apesar de não ter rugas, está um pouco mais cansado que antes [depois de uma balada, então, noooossa...].

 

Algumas roupas que você amava, de repente, do dia para noite não combinam mais com você e pior, você não consegue identificar exatamente quais roupas tem a ver com seu momento e estilo. Tudo que você veste parece estranho! Parece que aquelas roupas não suas, mas de alguma prima que as esqueceu em seu armário.

 

Como num passe de mágica o faculdade acaba e você, que nem sabe direito se escolheu a profissão certa, começa a procurar emprego. Detalhe: quase nenhum deles oferece um salário decente e se você conseguir um emprego por 900 reais tem que se dar por satisfeito e achar que está rico.

 

Se você não arranja emprego aí o problema aumenta. Olhar nos olhos do pai e da mãe se transforma num inferno, pedir dinheiro a eles, então....E por mais que você não tenha nada para fazer e esteja morrendo de sono não consegue mais dormir até o meio dia simplesmente porque sente culpa ou se acha ridículo.

 

Sonho? Que sonho? Com 20 e poucos os sonhos se transformam em pesadelo, porque você entende que alguns deles talvez não se realizem e também porque não há tanto tempo para sonhar: você precisa arregaçar as mangas e começar a prover seu próprio sustento.

 

Sem falar que a sensação, devido à falta de maturidade, de que tudo é definitivo, é agora ou nunca, tira boas noites de sono e deixa olheiras imensas [o que na manhã seguinte faz com que você nem queira se olhar no espelho].

 

Se você sempre quis fazer uma viagem com mochila nas costas e ainda não fez, o sentimento de agora ou nunca grita em alto e bom som: “a hora é agora, se você não for agora, não irá mais”. Mas esse grito não conta com a possibilidade de você não ter recursos financeiros para fazer a tal viagem. E o que vem depois? Frustração, medo e impotência.

 

Mas a pior sensação que uma pessoa de 20 e poucos anos experimenta é o medo de não conseguir chegar onde sempre quis e a certeza de que suas fantasias e sonhos  de outrora são muito maiores do que a realidade pequena que se encontram... Além , claro, do medo de ficar amarga e frustrada como aquela tia velha, a mãe, o amigo do pai, etc, etc, etc...

 

... E depois disso tudo ainda sou obrigada a ouvir que os 20 e poucos são a melhor fase da nossa vida?

 

Escrito por Mônica Montone às 13h41
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16/03/2006


 

:: Corcel negro::

 

 

Foto: José Marques Lopes 

 

Acreditar no destino é um dom que loucos e santos possuem. Os loucos porque se aventuram e sentem prazer ante a queda; porque são autônomos e não temem uma força oculta capaz de tirar seu poder de escolha: eles sabem que nada, nem ninguém, têm esse poder e sabem que acreditar no destino é apenas uma brincadeira como tantas outras, ou, uma escolha como tantas outras. Os santos porque acreditam que sempre alguém ou algo os salvará ou os punirá.

 

Os loucos escolhem, os santos esperam.

 

Mas como não existem loucos ou santos e sim momentos de santidade e de loucura, nós, que transpiramos a poeira dos dias, oscilamos entre um estado e outro. Nós, que somos feitos de sal, desejos e mentiras, buscamos no destino -em momentos de santidade - explicações vãs e esperanças tolas para agüentar a certeza de que a vida é incerta.

 

É preciso coragem para olhar o destino nos olhos! É preciso ter peito e um tanto de loucura para compreender que nem tudo na vida pode ser controlado. Eis a maior função do destino: ensinar aos Homens que cada maré tem seu próprio fluxo e não é passível de controle e que cada um de nós é um oceano distinto. Afinal, o destino é apenas um cavalo imaginário sem rédeas.

 

Em momentos de santidade, ou, [auto]crueldade, tentamos segura-lo pelas crinas. Tentamos montar em seu lombo, embora a queda e a dor dos coices sejam a única certeza. Sabemos que a tentativa nos fará “cair do cavalo”, mas mesmo assim tentamos..... E por que? Para quê? Por que precisamos tanto controlar tudo e todos?

 

Se Deus criou esse corcel negro e nós freqüentemente tentamos domina-lo, não estaríamos nós querendo brincar de ser Deus? Não estaríamos nós matando Deus ao desejar o mesmo poder que o dele [o poder de criar, recriar e controlar] como sugeriu Nietzsche?

 

Não, nós não somos Deus, nem loucos, nem santos. Somos apenas covardes porque nos negamos a conhecer nossas verdades. Sabemos do que gostamos e do que não gostamos. Sabemos [ou imaginamos que sabemos] o que pensamos sobre determinado assunto, mas desconhecemos, por completo, nossas verdades mais profundas e por esse motivo passamos a vida toda esperando a passagem de um cavalo para montarmos e fugirmos desse não saber que só traz ansiedade, medo e angustia.

 

Sendo assim, concluo que estamos nos tornando cada vez mais "santos"... O único problema é que não existe garantia de canonização para ninguém...

 

Escrito por Mônica Montone às 01h25
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14/03/2006


:: Ah, o que é isso? Elas estão descontroladas ::

 

 

 

Foto: Nina Jacobi www.imafotogaleria.com.br

 

O Fina Flor tem me proporcionado muitas surpresas. Mas somente hoje cheguei à conclusão que a melhor surpresa de todas foi a recepção e o carinho de algumas blogueiras. Pela primeira vez na vida me senti aceita em “núcleos femininos”.

 

Sim porque desde o pré-primário as garotinhas me odiavam! Puxavam meus cabelos presos em fitinhas vermelhas sem nenhum motivo aparente.

 

Segundo uma amiga minha, ou melhor, uma mui amiga minha, “algumas mulheres não tem estrutura para conviver comigo porque enxergam em mim tudo o que desejam e jamais poderão ter, então preferem se afastar”. Que explicação mais idiota, não? Preferia ser chamada de mala, chata, burra, metida... Preferia que dissessem que eu tenho bafo [bem, melhor não exagerar]...

 

Mas quer dizer, então, que “só enxergam as pingas que eu tomo, mas nunca os tombos que levo”? Que bom, não!? Sinal que minha imagem está boa por aí....

 

Quando eu estava no colégio a coisa era mais fácil: eu era a “in” e todas queriam ser como eu e assumiam isso [se minha mui amiga tiver razão, entendo que pelo menos as adolescentes eram mais autenticas] : usavam roupas iguais, freqüentavam os mesmos lugares, me traziam chocolates, limpavam minha mesa... Coisa de filminho teen americano. Mas não deixava de ser uma chatice. Eu não tinha amigas! Tinha couvers e me enxergar espalhada em todos os cantos era cansativo – até porque tinha dias que eu queria sumir de mim mesma.

 

Na faculdade o mulheril não economizou munição!!! Queimaram minha fotografia e expuseram no mural central do campus... Me excluíram dos grupos de estudos [e depois morreram de ódio por eu tirar dez e elas não]e daí por diante.

 

E eu, pobre de mim, só queria ter uma turma de amigas........

 

Aí veio a literatura. Na minha vã filosofia eu encontraria pessoas do bem. Pessoas com “a cabeça aberta”, pessoas dispostas a trocarem sensações, experiências, vivências e textos. Mas o que aconteceu? PUMBA! Me deparei com uma mulherada que me hostilizou demais por achar que eu não passava de um rosto bonitinho. Cheguei a ouvir numa Bienal “você é muito bonita para ser escritora”...

 

Isso é preconceito! Que culpa tenho eu se a genética me foi favorável? Quer dizer que além de não fazer amigas-escritoras [são pouquíssimas as que tenho!!!] eu ainda tenho meu trabalho julgado pelo tamanho da minha bunda?

 

Diante de tudo isso, só posso concordar com aquele funk infame: “ah, o que é isso? Elas estão descontroladas”... 

Escrito por Mônica Montone às 14h06
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12/03/2006


 

:: Princesas no orkut::

 

 

foto: Isabel Silva www.olhares.com

 

 

O que aconteceu com Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e Fiona depois do beijo? “Elas foram felizes para sempre”...? Isso é o que nos contam...

 

Quem pode nos assegurar que Branca de Neve não acabou com a própria vida por conta do ciúmes do príncipe em relação aos seus sete amigos? Que Cinderela não se tornou escrava do próprio marido e passou o resto dos seus dias lavando suas cuecas? Que Rapunzel não foi proibida de sair de casa pelo amado? E que Fiona não se arrependeu de ter ficado feia para sempre e não foi trocada por uma bonitona?

 

Tenho para mim que se existisse orkut naquela época o cenário seria outro. Certamente Branca de Neve não teria ficado com seu príncipe depois de ver suas comunidades: “eu odeio anões”, “tenho tara por mulheres branquinhas”, “sou ciumento, e daí?”, “já peguei a Cinderela”.

 

E Cinderela, o que pensaria se lesse no orkut do seu encantado ele chamando todas as princesas do reino de belas, deusas, únicas, incomparáveis, singulares, etc e tais?

 

Felizmente nós, princesas modernas, dispomos desse brinquedinho fantástico que é o orkut... Só que os sapos, digo, os príncipes, ainda não acordaram para isso...

 

 

Escrito por Mônica Montone às 23h39
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08/03/2006


:: Joana, a manca ::

para o dia das mulheres

 

 

 

 

Por má sorte ou coisa do destino Joana nasceu manca. A menina de olhos vivos e bochechas rosadas passou a infância arrastando a perna sem conseguir correr ou fugir da pena refletida nos olhos das pessoas.

 

Na adolescência, além da perna, Joana arrastava seus sonhos como se seus passos desajeitados pudessem varrer seus desejos para debaixo de um tapete mágico: desejo de dançar uma valsa, desejo de ser beijada, desejo de ser desejada, desejo de despertar paixões e cair apaixonada. Mas Joana vivia isolada! Não queria o que lhe ofertavam: pena.

 

Enquanto as meninas da sua idade pintavam os lábios frescos como figo e perfumavam seus dias e cadernos de recordações com mil declarações, convites e cartões, Joana bordava pássaros em panos de prato.

 

Mas o tempo passou e as meninas da sua idade se transformaram em mulheres cheias de olheiras. Uma delas, Camile, se matou ao ver o grande amor partir. Catarine teve cinco filhos, engordou, foi traída e trocada pelo marido. Vitória ficou mal vista e mal falada.

 

No final todas acabaram como Joana: dignas de pena. Porque tanto Camile como Catarine e Vitória padeciam da mesma má sorte que Joana: o desejo de ser desejada.

 

Não foi a perna manca de Joana que a afastou da impossibilidade do amor, mas o desejo de se ver refletida inteira, plena e perfeita, tal qual uma vitória régia boiando num lago, nos olhos de outrem.

 

As belas da tarde não eram mancas, mas não conseguiam caminhar depois de um “não”. E não conseguiam por falta de costume - já que a beleza é feita de infinitos sins - e porque um “não” as tornava mutiladas e fazia com que se sentissem como Joana, a manca.

 

O que elas não sabiam é que toda mulher tem um pouco de Joana ..

Escrito por Mônica Montone às 12h26
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Outro - Autora do livro Mulher de Minutos