Fina Flor


23/02/2006


:: Acidente na paulista ::

 

 

Eu precisei capotar um carro a 120 quilômetros por hora para entender que eu merecia mais do que imaginava que a vida podia me oferecer. Não me lembro precisamente o horário em que tudo aconteceu, só sei que foi durante a tarde e que assim como contam vi minha vida passar em frações de segundos - segundos de todas as tardes que sorri, chorei, me embriaguei, vacilei.

 

Eu não sabia que estava sem freio. Ou melhor, eu não quis frear.

 

Descuidada, esqueci de alongar minha retina... Não vi que o céu estava feio e que uma tempestade se formava bem ali, no meio da paulista.

 

Acelerei. Capotei. Foram três cambalhotas: a ida, a chegada e volta. Senti culpa quando enxerguei o mundo de ponta cabeça e senti os cacos de vidro nos olhos... “Eu deveria dirigir melhor”....

 

... Mas eu deveria tanta coisa!!!! Deveria pagar minhas contas, deveria apagar o rastro das minhas mentiras, deveria parar de fumar, deveria montar uma banda, deveria caminhar mais devagar.

 

Pensei em todos os “deveria” possíveis enquanto outros carros por mim passavam, porém me esqueci do mais importante: frear.

 

As placas indicavam o perigo ante minhas pupilas - a dor é tão prazerosa quanto o amor – no entanto decidi não parar. Para mim a única placa relevante naquele momento era a do meu desejo, desejo este que me levaria ao destino que supostamente me esperava.

 

Capotei. Foram três cambalhotas: a ida, a chegada e volta...Mas me salvei de um acidente fatal: a covardia dos que sobrevivem. Estou inteira como nunca antes.

 

“Foram-se os anéis de saturno e ficou a Vênus”. Fiquei eu! Eu, a menina com batimentos acelerados. A menina que talvez nunca consiga reduzir sua velocidade mesmo que seu descompasso não caiba em nenhuma cidade...

 

 

Escrito por Mônica Montone às 09h10
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20/02/2006


:: Satisfaction ::

 

 

 

Eu disse que não ia. Eu disse que estava velha demais para certas coisas [incluindo empurra-empurra de multidões]. Eu disse que não era fã dos Stones. Eu disse que muitas pessoas da minha geração estavam querendo assistir ao show só por embalo e que eu não seria mais uma. Eu disse que não valia a pena ficar no meio da muvuca para não conseguir ver nada. Eu disse que seria perigoso. Eu disse que o transito estaria caótico. Eu disse que não valia a pena.

 

Como eu falo bobagem!!!!

 

Sai de casa às 16:00h e peguei um táxi. Surpresa: transito zero. As ruas de Copacabana estavam fluindo mais que o normal. Só entravam táxis e ônibus.

 

Encontrei uma turma de amigos campineiros e ficamos sentados na areia, na altura do hotel Meridiam. Assim que a noite começou a cair meus olhos entraram em festa: o mar de Copa ganhou ares de Marina da Glória [meu cartão postal predileto do Rio]. Barcos de todos os tamanhos, navios transatlânticos, escunas, lanchas...Em poucas horas a praia ganhou um aroma romântico de mercado persa.

 

Enquanto os barcos jogavam suas âncoras no mar, helicópteros sobrevoavam a praia. Canhões de luz giravam. A sensação???? Imensidão! Deus parecia estar ali. As areias transmitiam uma vibração de solo sagrado. Nem solo brasileiro,  nem americano, nem europeu, nem asiático. Parecia o solo de um outro planeta, de uma outra dimensão.

 

Assim que o show dos titãs começou caminhamos em direção ao Copacabana Palace. E quando o telão começou a brilhar eu já estava atrás da ala vip.

 

Para o meu espanto eu sabia cantar muitas canções. Para o meu espanto me senti feliz como uma fã.

 

Mesmo que eu não tivesse conseguido enxergar nada, teria valido a pena. A sensação de imensidão que experimentei nunca encontrei em canto ou coisa alguma.

 

O show foi lindo. Perfeito. Emocionante. Mick Jagger é energia em estado bruto. Mas para mim o que ficou, mesmo, foi a imagem do todo: todos os prédios com suas luzes acesas e com pessoas nas janelas; o mar repleto de barcos;  o céu repleto de helicópteros;  gente, muita gente [gente sorrindo]; luzes e mais luzes; música.

 

Uma outra coisa me impressionou demais!!!!! O policiamento nota dez e a paz que reinava no ambiente. Não vi nenhuma briga! Não senti medo em momento algum.

 

A volta foi mais confusa e cansativa. Caminhei do Copacabana Palace até a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde peguei um táxi. Os músculos das minhas pernas tremiam involuntariamente. Mas valeu a pena!!!!!!!

 

Valeu a pena por muitos, infinitos motivos [como alguns que narrei acima], mas também por um aprendizado: aprendi que estar disponível de alma para as surpresas que a vida pode oferecer é estar aberto para o milagre da comunhão dos sentidos...

Escrito por Mônica Montone às 14h01
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17/02/2006


:: Meus dedos ::

 

 

 

 

 

Meus dedos percorriam velhos títulos enquanto o cheiro da amendoeira recém molhada pela chuva beijava minhas narinas. Queriam saber de um poema. Queriam saber de uma canção. Queriam saber de qualquer coisa que tivesse um “que” de tradução.

 

Carolina do Chico? Com seus olhos fundos.... Bem que o Chico tentou avisar que o pranto não ia em nada ajudar.... Bem que o Chico tentou avisar que lá fora uma rosa nascia, todo mundo sambava e uma estrela caia.... Mas Carolina não viu. E eu também não vi uma canção ou poema sequer que traduzisse meu tormento.

 

Se eu quisesse teria que compor uma canção. Se eu quisesse entender teria que tecer um poema. Se eu realmente quisesse tradução teria que abandonar os nãos.

 

Não! Eu não conseguiria escrever com meu sangue em ebulição. Não! Eu não conseguiria escrever com as mãos frias. Não! Eu não teria inspiração estando sem ar.

 

Não! Eu não definitivamente não consigo escrever quando meus dedos estão melados de gozo. O máximo que consigo é acender um cigarro..... Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Escrito por Mônica Montone às 01h54
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15/02/2006


:: Alma ::

 

 

Foto: Daniella Rosrário www.daniellarosario.com.br

 

 

Uma semana! Esse foi tempo que minha alma levou para dar a volta ao mundo e regressar sem novidade alguma. Sentiu o ciúmes arder na garganta, como ferida que não sangra. Sentiu inveja dos viajantes que chegam, bagunçam armários alheios e depois partem como se nada tivesse acontecido. Sentiu raiva por não poder, sem a armadura da pele, tocar os lábios que desejava. Sentiu náusea... Sentiu! Até cair exausta em minhas vértebras.

 

Enquanto flutuava, percorrendo bosques, praças, casas antigas e pequenos riachos , espreitava outras almas fugitivas. Elas se misturavam numa festa de cores, tal qual fogos de artifício no céu de janeiro. Explodiam e gritavam. Gemiam .O que queriam aquelas almas? O que queria ela? O que queria eu?

 

Eu! Um corpo entregue ao gozo e às lágrimas. Eu! Que tantas vezes vacilei ante o desconhecido. Eu! Que sempre entreguei meu silêncio aos olhos da serpente. Eu! Que sem paciência muitas vezes caí  doente de paixão. Eu, que nada fiz em vida, se não reclamar.

 

Reclamar do frio. Reclamar do calor. Reclamar das noites sem estrela. Reclamar das ausências. Reclamar da seca. Reclamar das inundações.

 

Uma semana! Esse foi tempo que minha alma levou para dar a volta ao mundo e regressar sem novidade alguma

 

Sem palavras, contou-me que tudo estava em sua perfeita ordem. Inclusive a desordem do meu coração. Contou-me que nada é ausente quando o presente é sentido como um milagre. Que toda a natureza dançava ao som da mesma sinfonia e que inclusive minha agonia, nada mais era do que um dos instrumentos sagrados da orquestra que regia o mundo– sem ela, o coro de minha vida desafinaria.

 

Contou-me, por fim, que ela era uma entidade separada de mim. Que generosamente aceitava coabitar o mesmo espaço que o meu eu, mas que somente ela, até agora, tinha experimentado as dores e delícias de um vôo sem pouso certeiro. Que eu, brincava de ser alma, mas não passava de uma criança tola. Uma criança que obedece seus instintos, inclusive e principalmente, o instinto de se proteger do abandono.

 

E antes de se acomodar em meu corpo e embalar meus sonhos, propôs que eu ateasse fogo em tudo que aprendi e me lançasse do topo das minhas fantasias, para, por fim, conhecer a umidade, a doçura e amargura da terra. Só assim eu seria como ela: alma.

Escrito por Mônica Montone às 11h53
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13/02/2006


:: Da imensidão ::

 

 

Daniella Rosrário www.daniellarosario.com.br

 

 

Demorei algum tempo para entender que água alguma mataria minha sede e que alimento nenhum mataria minha fome. Minha fome, assim como minha sede, não é vulgar. O pão que alimenta o corpo satisfaz a carne que me ampara, mas não o espírito que nunca cala.

 

Eu tenho fome de gente! Eu tenho sede de bocas. Eu tenho fome de histórias. Eu tenho sede de memórias. Eu tenho fome de mãos calejadas. Eu tenho sede de olhos marejados.

 

Há em mim uma inquietação que não cessa. Um burburinho estranho que quando menos se espera aparece e diz: vai.

 

Vai para onde, voz maldita? Para onde?...

 

Os laços de fita que outrora enfeitaram meus cabelos hoje não passam de amarelos esquecimentos. Para onde devo ir, então, se cada abraço e cada despedida no final das contas serão como aquelas velhas fitas?

 

O que adianta querer guardar  no peito uma lembrança que pede o esquecimento? O que adianta registrar momentos se eles sempre vão embora como pássaros em busca da alvorada?

 

Da vida eu não sei, nem entendo nada. Da morte tenho medo. Da imensidão tenho vontade. Mas sempre tenho a sensação de que cheguei tarde ou perdi alguma coisa.

 

Hoje amanheceu chovendo e gotas de céu me chamaram para brincar. Era para lá que eu tinha que ir, para a chuva. Para a água que não mataria minha sede, mas me faria despertar. 

Escrito por Mônica Montone às 12h53
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10/02/2006


 

:: Visita inesperada ::

 

 

Foto: http://photos.uol.com.br/banco.asp

 

 

Por Mônica Montone

 

 

Freqüento meus medos de tempos em tempos. Peço licença, me benzo e abro a porta. Sinto o cheiro, a textura. Escuto seus sons. Ruídos me assaltam! São as batidas do meu coração. Quanto mais perto, mais deserto. Fracassos, tabaco, paixões platônicas, rejeições, traições, inveja, mentiras, nãos. Eles não têm forma. Apenas existem. São como sementes esquecidas em terrenos áridos.

 

Meus medos ardem como pimenta que escorre por descuido pelas narinas. Eles me petrificam. Me fazem culpada de atos que sequer cometi, mas nem por isso me fazem comedida - sempre estou mais exposta do que gostaria. E quando os visito certa de que eles evaporaram descubro outros tantos distantes das minhas pupilas.

 

Uns se transformam em calor e depois escorrem sob gotas de lágrima e saliva. Outros flutuam como gigantescas águias, prestes a me depredar.

 

Apenas uma porta nos separa. Não sei se ela é grande, se é pequena. Não sei se é de madeira ou espelho. Se é de pano, grades de ferro ou porcelana. Sei, apenas, que está fechada e que minha face corada sempre denuncia o que há por trás do anseio de não cometer enganos.

 

Me afligem as coisas que não entendo e por não entende-las não controlo. Não controlo os ventos nem as marés, mas sei exatamente como funcionam – eis o maior advento da ciência: dar segurança ao homem. Mas não sei como funcionam forças sobrenaturais - como o amor - e temo me perder e para sempre ficar abandonada num cais.

 

Talvez o meu maior medo seja não saber amar. E o que mais me causa dor é saber que não adianta sabê-lo.

 

Estou tentando apagar o rastro das minhas mentiras, mas às vezes desconfio que elas são as únicas verdades que possuo. Que são as únicas pistas que tenho sobre mim mesma. Somente minhas mentiras me dão a noção exata de que sou feita de sal.

 

Meus medos desistiram de esperar minha visita e durante as noites suspiram em meus ouvidos melodias que não compreendo. Os meus medos me arrepiam, mas me fazem sentir que estou viva.

 

 

Escrito por Mônica Montone às 02h09
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09/02/2006


:: Em defesa dos homens ::

 

 

Foto: Daniella Rosrário www.daniellarosario.com.br



Sempre achei esse papinho de “homens são de Marte e mulheres são de Vênus” um saco. Tenho um amigo, que ao escutar essa frase diz imediatamente: “somos todos do planeta Terra”.

Claro que existem diferenças entre os sexos que ultrapassam o corpo e a genética, e hoje, sabemos que a forma de pensar de cada um é diferente. Mas talvez seja uma questão cultural, só isso. Mulheres foram educadas para x funções e ações e homens para y ações e funções. Nem vou entrar, aqui, naquele outro papo chato de que “as mulheres invadiram o mercado de trabalho e os homens estão se sentindo ameaçados”. Acho isso tudo muuuuito chato!!!!

Por que ao contrário de pensarmos como os homens e as mulheres se relacionam, nós não nos relacionamos mais??? Só existe uma maneira de saber se o fogo queima: colocando a mão na fogueira.

Tenho recebido há vários dias o mesmo e-mail, que vem com o título: “as mulheres finalmente vão a forra”. É engraçado, claro que é. São piadas, ora bolas!!! Assim como são engraçadas as piadas masculinas sobre as mulheres. Ambos os tipos não passam de crônicas! Nenhuma mulher é 100% como dizem as piadas e nenhum homem é 100% como dizem as piadas.

Talvez a questão seja: com que tipo de homem (ou mulher) a pessoa que escreveu essas piadas se relaciona ou se relacionou?????

 

Homem de verdade não é nem de longe como as piadinhas retratam, mulheres, tampouco. Homem de verdade faz comidinha para a namorada e massagem nos pés. Aprende a dançar só para bailar pelo salão com sua amada. Faz cafuné. Assisti ao filme no cinema de rosto coladinho, etc, etc, etc...

Os homens são as criaturas mais doces e encantadoras quando estão apaixonados. Arrisco a dizer que os homens, quando amam, amam para valer e se entregam mais que as mulheres, ao contrário do que reza a cartilha do senso comum. Eles não são palhaços, como dizem as piadinhas, só porque fazem xixi fora do vaso. E nós? Não deixamos muitas vezes a tal calcinha que eles detestam pendurada na torneira do chuveiro????? Só por isso somos palhaças, então??

Não sei, mas desconfio seriamente de pessoas que criticam demais o sexo oposto. Pessoas que adoram contar piadinhas sobre os homens ou sobre as mulheres. Tenho sempre a sensação de que essas pessoas nunca conhecerem alguém especial, nunca amaram, nem foram amadas.

Tem cara babaca que se acha a última coca-cola gelada do deserto? Que adora espalhar para os amiguinhos que comeu todas? Que é grosso, não sabe pedir “por favor”, “com licença” e jamais sonhou em abrir a porta de um carro para você entrar? Que está pouco ligando para o que você está dizendo e sempre desaparece? Tem, claro que tem... Mas eles não passam de “caras”, não são homens...

A escolha de se relacionar com um “cara” ou com um homem é da mulher...

... Portanto, mulheres, façam suas escolhas e convivam com elas!!!! Mas, por favor, não coloquem todos os homens num mesmo balaio de gato só porque alguém partiu seu coração...

Escrito por Mônica Montone às 14h20
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07/02/2006


 :: Eu não entendo ::

 

 

Temos a mania de transformar prazeres em problemas ou isso só acontece  de vez em quando comigo? Sim, porque o Fina Flor tem me tirado do sério com menos de um mês no ar.

 

Tem me tirado do sério primeiro por questões práticas: o servidor não me deixa postar textos longos e as fotografias que quero e isso me irrita muito.

 

Além disso, tenho recebido algumas cobranças como “você está adaptando sua linguagem, está ficando muito coloquial, seus textos já foram mais profundos, tome cuidado”.

 

Mal sabem as pessoas que me cobram como é trabalhoso escrever  de forma coloquial. Esses dias assisti uma entrevista do Jabor na Marília Gabriela onde ele dizia exatamente o que acabei de escrever, mas se referindo ao Nelson Rodrigues - que segundo ele foi marginalizado por usar a linguagem das ruas. Jabor contava que Nelson Rodrigues não entendia quando as pessoas diziam que suas peças estavam ficando “povão” demais e que esperavam que ele continuasse seguindo o padrão fabuloso do Vestido de Noiva.

 

Que mania essa de achar que textos bons são textos herméticos, densos e difíceis e que simplicidade e profundidade não podem coabitar as mesmas páginas. O poeta Mario Quintana era um gênio, um anjo disfarçado de homem e só escrevia coisas simples, ora bolas!

 

Isso é elitismo puro. Os acadêmicos e literatos falam tanto por aí que em nosso país há escassez de leitura, educação e cultura... Mas são os primeiros a jogar pedras em quem tenta “alargar” esses conceitos. O que dizer de Paulo Coelho?

 

Tudo bem que o Paulo Coelho não é um autor de palavras rebuscadas e lá muito profundas, mas e daí? Ele estimula a leitura!! Aliás, o primeiro livro que li na adolescência foi Brida. Ou seja, foi com o “cocô da literatura” que meu gosto pela leitura aflorou. Ele abriu minhas janelas para que Clarice, Gabriel Garcia Marquez, John Fante, Jorge Amado, Jorge de Lima, Drummond , Pessoa e tantos outros  pousassem em minha alma. Aliás, será que passa pela cabeça de alguém que ele talvez se esforce, e muito, para alcançar a tal linguagem coloquial? Pode ser, não sabemos... O que sabemos é que a maioria que o critica nunca leu um livro seu, por exemplo.

 

Outra coisa: o que adianta escrever algo para não ser compreendido? Não entendo isso! Afinal, todo escritor deseja ser lido e compreendido - o que diferencia cada um deles é o público-alvo que deseja atingir e alguns escolhem o elitismo, preferem ter seus livros lidos por poucos acadêmicos do que pelos muitos mortais [sempre subestimados] das ruas.

 

Estou começando a achar que o nome do Fina Flor deveria ser “Eu não entendo”, porque eu realmente não entendo algumas coisas...

Escrito por Mônica Montone às 23h54
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06/02/2006


:: BBBLOG::

Foto: Nina Jacobi

[texto abaixo, comente lá]

Escrito por Mônica Montone às 23h50
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O Fina Flor está parecendo o BBB: muitas pessoas dão uma espiadinha, mas poucos tem coragem de assumir isso. Caso contrário como poderia explicar a contradição entre o número de visitas e o número de comentários que recebo?

 

O preconceito é uma praga! Em geral as pessoas se preocupam com preconceitos macro-sociais como o racial, sexual, religioso, mas se esquecem de olhar para o próprio quintal.  Pequenos preconceitos, quando somados, erguem monumentos de ignorância!!!

 

Muitos amigos me incentivaram quando montei o Fina Flor. Cheguei a receber dezenas de e-mails. Mas comentar que gostou [ou não gostou] no próprio blog, nem pensar. Intelectuais [tirando os que se julgam marginais] não lêem blogs.  Nem sabem o que acontece nesse mundo - quer ignorância maior que a negação de uma nova experiência?

 

O mais engraçado foi perceber que minha humilde atitude desencadeou a criação de três deles. Como se o fato de eu -  uma pessoa considerada "antenada" e "inteligente" - ter montado meu blog fosse uma espécie de aval. Quanta bobagem!!

 

Bobagem também é a idéia de que para gostar de Noel Rosa não se pode gostar de rock e que para gostar de Clarice Lispector não se pode assistir ao BBB. O que uma coisa tem a ver com a outra? Hoje em dia, apesar de ficar irritada, já não me justifico mais com as pessoas que dizem: "Nossa, mas você assistindo BBB? Que contradição! Nunca pensei".

 

No meu caso penso que seria contraditório se eu não assistisse. Ora, sou formada em psicologia e passei anos estudando o comportamento humano. Aí, quando aparece uma vitrine, um laboratório desses, eu não vou assistir? Tudo na vida depende do ponto de vista.

 

Cada um tem o direito de escolher o que assistir, ler,  comer, vestir, ser e estar. Mas julgar [e discriminar]  sem conhecimento de causa [como geralmente acontece no caso dos blogs], não dá!  

 

Mas pior, pior mesmo, são aqueles que criticam, porém assistem  ao BBB e lêem blogs. Aqueles que entre uma cerveja e outra esbravejam que o país não vai para a frente por conta desse tipo de programa e de gente que quer aparecer e por isso monta um blog... Esses são de lascar! Criticam, mas sempre sabem quem está no paredão, quem ficou com quem,  e o que a blogueira ou o blogueiro tal falou na semana passada, etc, etc.

 

Não sei, mas realmente desconfio que algumas pessoas que visitam o Fina Flor mas não deixam seus comentários explícitos são as mesmas que assistem  ao  BBB com medo de ter uma congestão e morrer em frente  à  TV e depois  ficar conhecida como uma pessoa de gosto discutível.

 

De qualquer forma, visitas são sempre bem vindas!!! Obrigada a todos pelas quase 2000...

 

Escrito por Mônica Montone às 23h48
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04/02/2006


:: Otimismo ::

 

 

 

 

Sou uma pessoa otimista. Isso é um fato. Aliás, ando factual ultimamente, né? O último texto que escrevi dizia que minha velhice era um fato, também.  Talvez isso esteja acontecendo porque passei anos mergulhada na subjetividade de cada suspiro, palavra ou olhar. Talvez porque ser psi, mesmo sem atuar, tenha me tornado uma pessoa relativista e subjetiva demais, não sei.

 

Mas fato é: tudo o que é ruim pode ficar pior.

 

Estou dizendo isso porque andei triste durante uns dias, cansada das engrenagens que nos movem... E quando a alegria se apresentou num dia de chuva com saber de café da manhã e geléia de uva, resolvi comemorar comprando ingressos para um show da Vanessa da Mata. Afinal, a visita da minha felicidade merecia uma comemoração. Tomei banho de cheiro, coloquei incenso para perfumar o quarto. Pintei os lábios e mergulhei num vestido colorido e exótico – sem pensar no dinheiro absurdo que paguei pelo convite [um show no Canecão está saindo por 60 reais o ingresso mais barato]. Valia a pena. Eu estava feliz e Vanessa da Mata me provocava alegria sempre que cantava em minha vitrola.

 

Abriram-se as cortinas. “Alegria pra cantar na batucada, as morenas vão sambar, o samba tem alegria... Minha gente que era triste e amargurada enfeitou a madrugada... Salve o prazer, salve o prazer”...

 

Minha alegria ficou escandalizada e horrorizada! A até então vista por mim como uma leoa, não levantou a platéia. Parecia uma princesa que não queria suar para não borrar a maquiagem. Desafinou em diversas músicas, atropelou os músicos e não conseguiu soltar os agudos que são maravilhosos nos discos.

 

Pensei que estivesse louca! Pensei que talvez tivesse criado expectativas demais. Depois pensei que estava ficando velha, mesmo, porque o povaréu do Canecão estava aplaudindo. Resolvi sair para fumar um cigarro e ufa, quatro meninas falavam exatamente o que eu estava percebendo e sentindo: mulher linda, letras primorosas, música linda; presença de palco zero, calor zero, empolgação zero, interação com a banda e platéia zeeeeeero.

 

Sai do show arrasada e com vontade de quebrar os discos dela. Me senti enganada. Até eu conseguia atingir os agudos dos seus álbuns, como ela não conseguia? E aquela pose de leoa? Aquele cabelão todo que passa uma imagem de atitude? Sua atitude ficou escondida por traz da cascata de cachos...

 

Infelizmente acho que estava errada quando escutei o disco da Céu e proferi: “essa menina vai desbancar a Vanessa da Mata pois conserva sua essência, não se vendeu ao mercado do “ai, ai, ai, ai, ai, ai” ...

Estava enganada porque a Céu não tem música nas novelas e só faz sucesso no exterior. [ouça o trabalho da Céu no http://www1.uol.com.br/ziriguidum/0511/051110-01.htm  - indico as faixas 3 e 6] e agora, com o mega sucesso no Canecão, Vanessa deve ganhar o mundo.... Sei não, mas cada vez mais concordo com Nelson Rodrigues quando ele diz que “toda unanimidade é burra”.

Minha felicidade ficou arranhada com esse show, mas não perco o otimismo... Tem muito Céu azul para ser desbravado por aí...

Escrito por Mônica Montone às 01h38
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02/02/2006


:: Coisas da vida ::

Foto: Daniella Rosrário www.daniellarosario.com.br

*** texto abaixo [comente lá!] ***

 

Escrito por Mônica Montone às 18h22
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Ok! Estou ficando velha. Isso é um fato. A gravidade ainda não me afetou, pois tenho vinte e poucos anos. Também não preciso ficar sócia, ainda, da Biocolor, porque os cabelos brancos não se apresentaram. Mas definitivamente eu não tenho mais paciência para:

 

Passar o carnaval [que está chegando e os convites também] no meio de uma guerra que foi denominada como “pegação” nos lugares mais badalados como micaretas, Diamantina, Cabo Frio, etcs e tais;

 

Ficar espremida num pedaço de areia no posto 9 ouvindo as meninas falarem dos seus casos da noite passada e ver os meninos jogarem futevôlei só pelo prazer de ver gente bonita;

 

Passar horas na fila de um bar da moda para depois conseguir uma cerveja quente e cara;

 

Ser puxada pelo braço, ou pelos cabelos, numa baladinha –vitrine –light como o Baixo Gávea;

 

Acampar no meio do nada sem o mínimo conforto como: banheiro;

 

 Pagar caríssimo por um chope e um pedaço de pizza na pizzaria Guanabara quando o chope do Diagonal [na esquina ao lado] é bem mais barato só para poder participar do desfile dos coadjuvantes da Malhação ou candidatos à vaga;

 

Agüentar o som ruim da bandinha – que só ensaia depois das dez – da republica de estudantes que acabou de se formar no meu prédio [ao lado do meu apto] e as festinhas diárias;

 

Os dramas amorosos de amigas da minha idade que ainda não entenderam que o amor não é remédio para espantar a carência;

 

Conversas sobre gordura localizada e celulite;

 

Gente que se acha o supra-sumo da inteligência só porque leu UM  livro do Guimarães Rosa;

 

Gente que paga carííííssimo por um all star e se diz alternativo;

 

Pessoas adeptas da Nova Era que acham que você não é evoluído só porque não faz yoga, não come comida natural e não lê os livros do Osho;

 

E por aí vai..

 

Se não estou ficando velha, no mínimo estou ficando chata!!! E como é difícil assumir a própria chatice, prefiro dizer que estou ficando velha, pois envelhecer é sinônimo de viver... O contrário da velhice, como bem disse Tônia Carreiro outro dia, é a morte.

Escrito por Mônica Montone às 18h19
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01/02/2006


 :: A espera de um lar ::

 

 

Foto: Sofia Bras Monteiro [ www.sofiabrasmonteiro.com

 

Num mundo onde esquisitices e atrocidades acontecem diariamente e são manchetes nos jornais, o mínimo que as pessoas esperam de nós é que estejamos atualizados com a “tragédia do dia” ou no máximo da semana. Passou de uma semana, não serve mais. Não rende assunto. Não espanta. Não dói.

 

Mas em mim ainda dói, sim, a imagem da menininha que foi encontrada dentro de um saco plástico numa lagoa em Minas Gerais. Chorei quando assisti ao vídeo do resgate! Fazia tempo que uma cena não me chocava tanto. Primeiro pela monstruosidade, segundo pelo milagre da sobrevivência.

 

Mas esse episódio cruel trouxe á tona uma questão séria: a adoção no Brasil. Segundo o jornal O Globo de terça-feira, mais de 300 candidatos se ofereceram para a adoção da pequena Iara [que agora se chama Letícia]. No entanto, o juizado da infância de Belo Horizonte determinou que seja realizado, no prazo de um mês, um estudo psicosocial da família biológica e que até a conclusão do estudo o bebê deve permanecer num abrigo municipal. Já o promotor Lucas Rolla disse que a mãe não perderá os direitos sobre a criança e que se demonstrar arrependimento e equilíbrio emocional poderá obter a guarda da menina.

 

Como assim? Ele deve ter se enganado! Não é possível?!

 

Em relação aos candidatos à adoção, o juizado explicou que existem muitos casais na lista de espera por uma criança e que dará prioridade a eles – por já possuírem seus estudos psicosociais concluídos.

 

Sim, gente, a lista é grande e a burocracia, também. Conheço um casal que passou quatro anos tentando adotar uma criança e não conseguiu apesar de preencher todos os pré-requisitos. Além da burocracia ser grande [milhões de entrevistas, pesquisas, documentações, visitas programadas à criança que pretende adotar e bláblá], existe outro problema: os casais só querem bebês. O que faz com que centenas de crianças fiquem abandonadas em orfanatos até crescerem e quem sabe ganharem as ruas com bolinhas de circo nas mãos.

 

Na tentativa de chamar a atenção da população para essa questão, uma campanha causou polêmica em Salvador: “adote uma criança por um fim de semana". Ou seja, algumas pessoas [com intenção de adotar ou não] levavam para casa uma criança e davam todo amor, carinho, conforto e segurança. E depois, a devolviam.

 

Quando escutei isso de uma amiga quase cai para trás. Achei de uma crueldade sem tamanho. O mesmo que levar uma criança a um parque de diversões e não dar a ela o passaporte para entrar nos brinquedos. Mas ela [que estava trabalhando no projeto] me afirmou que os resultados eram positivos: algumas pessoas se sensibilizavam e acabavam adotando a criança.

 

Gente, como assim?????? E as crianças que não foram adotadas e acompanharam seus coleguinhas deixando o abrigo para finalmente ter um lar? No mínimo se sentiram indignas de amor. Por outro lado, os agentes dessa campanha estão tentando solucionar, ou, amenizar o problema, o que é louvável. Eu, particularmente, não tenho a menor idéia de como essa questão pode ser resolvida. Apenas sinto tristeza por nossas crianças...  Quanto à pequena Letícia, que seu nome traga, realmente, muitas alegrias...

 

Escrito por Mônica Montone às 01h45
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