:: Otimismo ::
Sou uma pessoa otimista. Isso é um fato. Aliás, ando factual ultimamente, né? O último texto que escrevi dizia que minha velhice era um fato, também. Talvez isso esteja acontecendo porque passei anos mergulhada na subjetividade de cada suspiro, palavra ou olhar. Talvez porque ser psi, mesmo sem atuar, tenha me tornado uma pessoa relativista e subjetiva demais, não sei.
Mas fato é: tudo o que é ruim pode ficar pior.
Estou dizendo isso porque andei triste durante uns dias, cansada das engrenagens que nos movem... E quando a alegria se apresentou num dia de chuva com saber de café da manhã e geléia de uva, resolvi comemorar comprando ingressos para um show da Vanessa da Mata. Afinal, a visita da minha felicidade merecia uma comemoração. Tomei banho de cheiro, coloquei incenso para perfumar o quarto. Pintei os lábios e mergulhei num vestido colorido e exótico – sem pensar no dinheiro absurdo que paguei pelo convite [um show no Canecão está saindo por 60 reais o ingresso mais barato]. Valia a pena. Eu estava feliz e Vanessa da Mata me provocava alegria sempre que cantava em minha vitrola.
Abriram-se as cortinas. “Alegria pra cantar na batucada, as morenas vão sambar, o samba tem alegria... Minha gente que era triste e amargurada enfeitou a madrugada... Salve o prazer, salve o prazer”...
Minha alegria ficou escandalizada e horrorizada! A até então vista por mim como uma leoa, não levantou a platéia. Parecia uma princesa que não queria suar para não borrar a maquiagem. Desafinou em diversas músicas, atropelou os músicos e não conseguiu soltar os agudos que são maravilhosos nos discos.
Pensei que estivesse louca! Pensei que talvez tivesse criado expectativas demais. Depois pensei que estava ficando velha, mesmo, porque o povaréu do Canecão estava aplaudindo. Resolvi sair para fumar um cigarro e ufa, quatro meninas falavam exatamente o que eu estava percebendo e sentindo: mulher linda, letras primorosas, música linda; presença de palco zero, calor zero, empolgação zero, interação com a banda e platéia zeeeeeero.
Sai do show arrasada e com vontade de quebrar os discos dela. Me senti enganada. Até eu conseguia atingir os agudos dos seus álbuns, como ela não conseguia? E aquela pose de leoa? Aquele cabelão todo que passa uma imagem de atitude? Sua atitude ficou escondida por traz da cascata de cachos...
Infelizmente acho que estava errada quando escutei o disco da Céu e proferi: “essa menina vai desbancar a Vanessa da Mata pois conserva sua essência, não se vendeu ao mercado do “ai, ai, ai, ai, ai, ai” ...
Estava enganada porque a Céu não tem música nas novelas e só faz sucesso no exterior. [ouça o trabalho da Céu no http://www1.uol.com.br/ziriguidum/0511/051110-01.htm - indico as faixas 3 e 6] e agora, com o mega sucesso no Canecão, Vanessa deve ganhar o mundo.... Sei não, mas cada vez mais concordo com Nelson Rodrigues quando ele diz que “toda unanimidade é burra”.
Minha felicidade ficou arranhada com esse show, mas não perco o otimismo... Tem muito Céu azul para ser desbravado por aí...