Fina Flor


30/01/2006


 :: Existência ::  

Por Mônica Montone

 

 

Foto: Sofia Brás Monteiro [ www.sofiabrasmonteiro.com ]

 

 

Eu só existo quando desisto de mim

Quando jogo a toalha

Beijo a lona

E entrego as medalhas imaginárias

Que um dia achei que mereci

 

Eu só existo quando insisto na melodia de cada poema

Quando bailo junto às rimas

Numa noite de gala

Sem paetês ou purpurina

 

Meu país não é minha pátria

Nenhum pedaço de chão vai me dar o direito de ser eu mesma

Nenhuma cidade, por mais iluminada que seja

Ofuscará  o breu dos meus medos

Ou a inveja dos olhos que não vejo

 

Nenhum povoado

Rico ou pobre

Me tornará um ser nobre

Digno de amor e confiança

 

Eu só existo quando minha alma dança

E se deixa levar

Mesmo que seja para a beira de um precipício

 

 

 

Escrito por Mônica Montone às 23h34
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28/01/2006


:: Mundos separados ::

 

 

Foto: Sofia Brás Monteiro [ www.sofiabrasmonteiro.com ]

 

Assistindo um programa de TV do canal GNT na madrugada de quinta-feira, duas lágrimas saltaram dos meus olhos involuntariamente.

 

O programa, chamado Mundos Separados, mostrava a experiência de uma família americana que decidiu passar dez dias no Quênia e viver conforme as leis dessa cultura. A formação da família: uma adolescente, um garoto de dez anos, um menino de cinco, a mãe e o pai.

 

Durante a primeira semana muitos conflitos surgiram e os filhos chegaram a amaldiçoar os pais por estarem numa situação tão desgastante.  Eles eram obrigados a comer carne de camelo, dormir no chão e não podiam tomar banho. O mais inconformado era o garoto de dez anos – que enfrentava os pais, chutava, gritava e cuspia nos meninos da tribo.

 

No entanto, após cinco dias de convívio o garoto passou a se entrosar com aquele povo simples melhor que os seus familiares. Deu seus brinquedos, seus bonés, saiu para caçar com os meninos da sua idade.  E quando já estava totalmente integrado cometeu um erro fatal: contaminou a água do povoado com um pote sujo por saliva de cachorros.

 

O menino chorou descontroladamente por mais de uma hora. Sua família aproximou-se apenas para recrimina-lo -  mantendo em mente seu comportamento dos primeiros dias, ignorando por completo as mudanças que ele apresentou no decorrer da semana.

 

Seu desespero só cessou quando uma das mulheres da tribo – Tereza, a matriarca – o chamou para conversar e com um sorriso repleto de ternura disse:

 

_ Escute, você não sabia que é difícil para nós conseguirmos água. E também não sabia que o pote estava sujo e poderia contamina-la. Não tem problema. É errando que se aprende. Você quer ajudar a buscar água limpa na tribo vizinha para se sentir melhor?

 

O garoto parou de chorar, abraçou a mulher e foi buscar água no povoado vizinho. Encarou uma viagem de oito horas num caminhão sujo, aberto e desconfortável, mas estava feliz, pois lhe deram a chance de reparar seu erro e apontaram um caminho.

 

Fiquei pensando nas mensagens que me foram transmitidas durante a infância e cheguei à conclusão que minha família daria um desenho animado tal qual “Os incríveis”. A frase que mais ouvi a infância inteira quando dizia “desculpe, mas eu não sabia” foi: “você deveria saber” – frase que, coincidentemente, foi usada pelos pais do garoto americano.

 

E assim atravessamos décadas, de geração em geração, todos com a obrigação de “sempre saber” – o que já na vida adulta se transformou em desejo de controlar as variáveis para estar seguro dos resultados. Mas o único resultado visível disso tudo foi a ansiedade [uns comem demais, outros fumam demais; uns bebem demais, outros falam demais, etc e tais].

 

Hoje, no entanto,  a única coisa que realmente sei é que preciso urgentemente entender que “é errando que se aprende” sem precisar ir ao Quênia.

 

Escrito por Mônica Montone às 02h25
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26/01/2006


:: As melhores notícias não dão manchete ::

 

 

 

Foto: Lourdinha Calainho [exposição no www.culturall.com.br]

 

Andei trancada em casa por uns dias. A insatisfação para com os acontecimentos me trouxe um sentimento de resguardo necessário.

 

Notícias de mães que mandaram matar seus filhos para ficarem com o dinheiro da pensão e um apartamento; propaganda gigantesca de um banco na segunda página do Segundo Caderno [considerado um dos mais importantes cadernos de cultura do país por se tratar do jornal O Globo]; Bruna Surfistinha na lista dos “the best”e pronta para ver na telona um filme sobre sua vida...

 

Além das páginas dos jornais, em esquinas mais próximas, amigos de vinte e poucos anos se entupindo de calmantes para agüentar a dor de uma desilusão amorosa e do desemprego; outros deprimidos por não terem atingido a fama que desejavam e invejando a fama alheia; ex-famosos implorando atenção e se empanturrando de canapés num coquetel; amiga da amiga apanhando do namorado e dizendo que não suporta viver sozinha, por isso agüenta; veneno escorrendo nos grupos de poesia que se preocupam mais com visibilidade do que com a própria poesia....

 

Sair de casa para quê? Foi que o que me perguntei, ontem, enquanto metia uma maquiagem suave na cara.

 

Sair de casa para encontrar GENTE! Gente de verdade!! Por isso fui ao lançamento do site de um querido amigo, o Geraldinho Carneiro

[ www.geraldocarneiro.com  ]. Por ele eu sai de casa. Sai de casa, também, para ter a felicidade de encontrar o poeta Salgado Maranhão, um mestre em sabedoria e poesia visceral.

 

Salgado, entre outras coisas, me explicou como nossas escolhas [uma delas não ceder ao lodo da mídia atual] nos trazem boa aventurança. Dizia ele:

 

_ Veja você, Mônica, o Ferreira Gular foi companheiro de luta do Sarney. Mas cada um escolheu o seu caminho. Hoje o Ferreira tem uma obra inigualável e um apartamento modesto e o Sarney uma montanha de dinheiro. Quem está mais feliz? O Sarney não pode voar porque não consegue carregar o peso de tudo o que acumulou, é uma pessoa cansada, que aparenta tristeza, já o Ferreira.....

 

Valeu a pena sair de casa! O lançamento do site do Geraldinho foi lindo, de um bom gosto extremo. O site também está impecável e a proximidade de pessoas inteligentes, sensíveis e humanas me fez um bem danado.

 

Hoje acordei e resolvi não ler os jornais. Para quê, se acontecimentos [e eventos] sublimes como esses não dão notícia? Como dizia Raul Seixas “eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”...

Escrito por Mônica Montone às 15h36
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25/01/2006


:: As mentiras que nos contam ::

 

 

 

Quando criança escolhemos o que comer. Travamos a boca para o que não gostamos e ninguém é capaz de nos fazer engolir o que não queremos. Então apanhamos - precisamos comer o que todos comem, precisamos ter educação.

 

Depois vem alguém e diz que devemos escrever com letras bonitas: "o vovô viu a uva"! E lá vamos nós...Forçamos nossas pequenas mãos de anjo em busca da letra redonda.

 

Quando criança quis saber por que a vovó não viu a uva? E por que o vovô não comeu a uva, apenas viu?

 

Minha letra nunca foi redonda...

 

Logo adiante a adolescência chega e o que acontece? "Cala boca nega, que você não sabe de nada"!!! "Por que"?! "Porque sim"!

 

Aos poucos vamos acreditando nessa mentira que nos contam e pumba, caímos de pára-quedas no vazio da juventude. Nesse momento  nos damos conta de que esquecemos quase tudo!! Não sabemos mais o que queremos comer, se nossa letra é bonita, se é permitido perguntar.

 

É por isso que escrevo! Para não esquecer o que sempre soube! Para poder fechar a janela do mundo e abrir o recanto da minha alma.

 

Escrevo para ver...

Escrito por Mônica Montone às 01h13
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24/01/2006


:: Encantamentos e desilusões ::

 

 

Foto: Rafael Castanheira

 

 

Será que Oscar Wilde tinha razão quando disse que “o resultado de toda experiência é sempre a desilusão”? E até que ponto a desilusão é negativa? Fico pensando se ela é negativa, mesmo, ou se foi nossa cultura que atribuiu esse peso a ela.

 

Deveríamos ficar extremamente felizes quando nos desiludimos! Porque se desiludir é o mesmo que acordar para a realidade. Dói? Dói! A borboleta também sangra quando sai do casulo e muda completamente sua realidade, mas nem por isso deixa de sair e voar... Nem por isso deixa de gozar perfumes e sabores antes desconhecidos.

 

Eu me desiludo com uma freqüência enorme, pois padeço de encantamento constante. Me encanto pelas pessoas, pelas cidades, pelos gostos, pelos cheiros, pelas palavras...

 

Meu último encantamento teve um nome jamais imaginado por mim: blogosfera. Fiquei definitivamente apaixonada quando descobri que estava errada sobre o mundo dos blogs [adoro descobrir que estou errada!!!]. Dentro da minha ignorância, achava que os blogs eram apenas passatempo de adolescentes. Mas quando montei o Fina Flor e resolvi passear pela "blogosfera" fiquei de queixo caído. Tem muita gente boa escrevendo coisas maravilhosas por aí.

 

Imediatamente quis fazer amizades! Deixei recados nos blogs que mais gostei e convidei as pessoas para pousarem nas pétalas do Fina Flor. Mas o que eu não sabia, ainda, é que se “são demais os perigos dessa vida para quem tem paixão”, como cantava Vinícius, os perigos aumentam quando se tem um blog.

 

Algumas pessoas, as quais desconheço, me mandaram e-mails horrííííííveis e agressivos! Outras foram irônicas e ásperas. Não entendi muito bem as razões! Mas no final das contas acabei entendendo que elas me fizeram um favor: me trouxeram a desilusão.

 

Nunca uma desilusão foi tão bem vinda!!! Agora estou mais atenta!! Agora estou mais preparada para o que pode acontecer... Agora sei em que terras posso pisar sem me machucar...

 

E aos amigos [conhecidos e desconhecidos] que têm deixado recadinhos carinhosos de apoio, incentivo e questionamento, deixo aqui o meu MUITO OBRIGADA!!! Nunca pensei que com apenas uma semana no ar o Fina Flor atingiria o número de 1005 visitas.

 

... Como dizia meu avô: “nesse mundo tem muita gente ruim, mas ainda tem muita gente boa”...

Escrito por Mônica Montone às 00h11
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22/01/2006


 

::Pirâmide de emoções::

 

 

Culpa = raiva

Raiva = frustração

Frustração = expectativas

Expectativas = idealizações

Idealizações = medo da rejeição

Medo da rejeição = vergonha

Vergonha = sentimento de não suficiência

Sentimento de não suficiência = auto-estima baixa

Auto-estima baixa = auto-imagem distorcida

Auto-imagem distorcida = ansiedade e/ou depressão

 

 

Tenho para mim que essa pirâmide nos rege sem percebermos. Que a base da maioria dos sentimentos que nos afligem está na auto-imagem distorcida e na baixa auto-estima. Porém, ao contrário do que muitos pensam, auto-estima nada tem a ver com se sentir belo, inteligente, amado e respeitado. Auto-estima tem a ver com auto-conhecimento - dos próprios limites, vontades, sonhos e afins.

 

É engraçado, mas a maioria das pessoas que conheço quando se sente com a auto-estima baixa procura uma academia, faz regime ou começa um curso novo. Quando os resultados aparecem [emagrecer, por exemplo] o mundo fica cor-de-rosa, mas depois de algum tempo uma angústia sem nome nem razão aparece. Por que será?

 

Simplesmente porque essas ações - cursos, regimes, malhação - são paliativos e atacam parcialmente o problema [no caso, a insatisfação com o corpo]. Mas o que está por trás da insatisfação com o corpo? Um sentimento de inadequação e de insuficiência!

 

E o que fazemos para nos livrar do sentimento de insuficiência? Vestimos capas!!! Vestimos a capa do super-homem [e da mulher-maravilha] que resolve tudo e cuida de todos, vestimos a capa da bondade e da humildade para nos sentirmos aceitos, vestimos a capa da inteligência e da racionalidade para nos protegermos de emoções que desconhecemos, vestimos a capa do estudioso que faz um milhão de cursos para nos livrar do medo de não ser aceito no mercado de trabalho e daí por diante.

 

Mas quanto mais vestimos capas, menos enxergamos quem realmente somos. O tiro acaba saindo pela culatra. Acabamos nos perdendo entre um véu e outro e deixamos de enxergar nossas qualidades e potencialidades. Então, quando algo dá errado, sentimos culpa, raiva, frustração, medo, vergonha...

 

As capas podem até nos proteger de uma pequena chuva, mas não de uma avalanche de emoções. Quanto mais usarmos capas, menos estaremos protegidos, pois as avalanches não anunciam sua chegada...

Escrito por Mônica Montone às 17h20
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20/01/2006


:: Balada do ser errante ::

Por Mônica Montone

Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa. Que tudo o que você fez ou faça é tão somente para ser bem visto e bem quisto pelos outros. Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia nada mais é do que um pretexto para se esquivar da própria agonia  - da terrível e temível sensação de não ser aceito, não ser perfeito.

 

Descobre que até as roupas que USA são escolhidas por você como um passaporte, um cartão de ouro, capaz de abrir as portas do matadouro social. Descobre que seus amigos estão a seu lado não por admiração ou carinho - mas porque você se esforça para ser especial e porque eles podem lucrar algo, nem que seja um telefonema no natal ou um cartão postal de viagens invejadas.

 

Descobre que as pessoas não o conhecem e não tem a menor idéia de quem você seja, mas que no fundo elas não têm culpa disso, pois foi você quem sempre fingiu ser o que não é.

 

Depois de um tempo você descobre que nada disso faz sentido, mas como está distante de tudo o que realmente é importante

já não consegue voltar atrás! Vive seus dias como um ser errante à espera de um "milagre": casamento, parceiro, dinheiro, emprego, filhos, felicidade... E enquanto a cidade se agita, sozinho no ninho você grita e sente as dores de um parto que jamais aconteceu: o seu!!!

Escrito por Mônica Montone às 17h49
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19/01/2006


:: Cultura do êxtase ::

 

 

Moro no Rio há seis anos e amo essa cidade como se nunca tivesse saído daqui. Ainda me encanta o entardecer na Marina da Glória, os barquinhos de pescadores da Urca, as ruas do Leblon. Quando meus olhos lambem o topo dos dois irmãos esqueço-me até mesmo do descaso dos governantes que permitem que milhares de pessoas vivam de forma precária e da violência que explode nos morros e nas esquinas.

 

Mas infelizmente a violência na cidade não é “privilégio” daqueles que vivem armados com escopetas. Ou entrar num cinema com dez amigos, no meio do filme, jogar lanches do Mcdonald´s  nas pessoas e mandar todos irem tomar no cú não é um ato violento????? Pois foi isso que fizeram dez adolescentes da zona sul carioca no cine Leblon. Todos vestidos com roupas de marca, bonitos e cheios de dinheiro para gastar à vontade. E o que dizer dos pitiboys que vez ou outra aparecem nos jornais por terem espancado alguém numa boate?

 

Houve um tempo em que achei que esse comportamento era derivado da falta de limites em casa. Cheguei a escrever um texto com aquele blábláblá sem fim de que os pais se sentem culpados por trabalhar fora, não ter tempo para os filhos e acabam sendo permissivos demais. Ainda acredito que essa avaliação tem um fundo de verdade, mas felizmente o tempo não traz somente pequenas expressões faciais, mas também o amadurecimento das idéias. Hoje não me sinto apta a dizer que os jovens [cariocas ou não]  estão violentos somente porque os pais não impuseram limites a eles. Tampouco que a cultura do consumo os leva a não valorizar nada, tratando tudo e todos como utensílios descartáveis.

 

Hoje, prefiro concordar com o filósofo Baudrillard quando diz que  nos transformamos na “cultura do êxtase”, ou seja, a cultura do “sem fim”...

 

“Hoje, a única revolução das coisas não está mais na sua superação dialética, mas na elevação à potência X, seja ela a do terrorismo, da ironia ou da simulação. Não é mais a dialética, é o êxtase que está em curso. Assim, o terrorismo é a forma extática da sociedade, a pornografia é a forma extática do sexo, o obsceno é a forma extática da cena. É como se as coisas tivessem perdido seu fim”. [Jean Baudrillard]

 

Sendo assim, concluo que os pais não são os únicos responsáveis pelas ações dos seus filhos, mas todos nós, que sem percebermos somos coniventes com a “cultura do êxtase” e refletimos essa mensagem nos espelhos que somos em todo momento.

 

Quanto à cidade maravilhosa, prefiro sentir-me extasiada por sua beleza, que realmente é sem fim e não faz mal a ninguém...

Escrito por Mônica Montone às 16h55
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18/01/2006


:: Um mundo sem fronteiras::

 

Durante a faculdade de psicologia discuti muito em sala de aula a mudança de paradigmas que nossa sociedade sofreu [e vem sofrendo] em relação a questões como: vida pública versus vida privada.

 

 Alguns autores que li afirmavam que a grande mudança começou com a chegada do trem a vapor. Foi a partir daí que as notícias começaram a circular com mais velocidade e que a curiosidade em relação ao que acontece no final de cada trilho aumentou.

 

Naquela época eu discutia, questionava, argumentava. Tratava-se de um jogo de palavras e talvez de uma disputa tácita entre alguns colegas de sala que queriam mostrar que possuíam mais conhecimento que outros.

 

Um dos exemplos mais usados para ilustrar a queda do muro que separava a vida pública da vida privada era o uso dos celulares em elevadores e a mensagem subliminar contida nas propagandas de celulares [como a da Tim, que sugere “um mundo sem fronteiras”].

 

Porém, hoje, ao acordar, senti vontade de discutir isso com os punhos e não mais com palavras. Pulei da cama com dor de cabeça e com vontade de mandar os vizinhos do meu namorado para a pqp. Se eu “os conhecesse” na época de faculdade, com absoluta certeza teria usado eles como exemplo nas discussões.

 

A família maluca é composta por um menino de três anos que joga bola dentro de casa às 00:00h, um velho que gosta de assistir o jornal das sete da manhã no último volume porque é surdo, uma velha que fez traqueotomia e quando fala seu aparelho apita, o pai do garoto, um cachorro que arranha a noite inteira o chão da casa [teto do meu namorado!!!!!!] e tchatchatcham: a mulher que não consegue ser feliz - a mãe do garoto. Ela acorda TODOS OS DOMINGOS gritando que “não dá para ser feliz naquela casa”.

 

Se o prédio não fosse no Leblon eu poderia jurar que estava dormindo num cortiço. Eles gritam na janela para as pessoas que passam na rua, brigam entre si... Um inferno. E não adianta reclamar com o síndico!! Outros inquilinos já reclamaram e como não obtiveram uma resposta resolveram se mudar.

 

“Um mundo sem fronteiras” pode ser muito bom para quem deseja chegar ao outro lado do trilho, mas e para quem não quer receber quem chega????? Resta apenas a resignação? Um mundo sem fronteiras anula o sábio ditado “o direito de um termina quando começa o do outro”?

Escrito por Mônica Montone às 13h36
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17/01/2006


:: Tenho pena das mulheres que não gozam :: 

 

Por Mônica Montone

 

 

Tenho pena das mulheres que não gozam

Elas não sabem

Que sobre o colchão

A pele derrete

E que suas grutas ficam quentes

Como lava de vulcão

 

Desconhecem a meninice dos dedos

Que pulam de um mamilo ao outro

E brincam de esconde-esconde

Sob a chuva de estrelas mil

 

Não imaginam para que servem as mãos

Nem para que suas bocas foram feitas -

Talvez seja por isso que falem demais

 

Tenho pena das mulheres que invejam aquelas que gozam

Elas não sabem

Que seus seios são frutas maduras

Morangos, pêssegos, pêras, uvas

Pequenas cerejas mergulhadas em doces trufas

 

Por suas pernas e ancas

Jamais escorreu o néctar dos deuses

A bebida sagrada

O mel branco que é alimento

Feito leite de cabra

 

Tenho pena dessas mulheres

Por que elas serão eternamente amargas

Escrito por Mônica Montone às 15h58
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16/01/2006


:: O que me irrita em você ::

 

 

 

Por Mônica Montone

 

 

De frases clichês o mundo está cheio [e farto], mas inicio meu texto, hoje, com uma delas: “As crianças tem muito a nos ensinar”.  Incrível como isso é verdade e incrível, também, como as pessoas não entendem realmente o significado dessa frase.

 

Aprendi, esse fim de semana, que as crianças tem muito a nos ensinar não porque tem uma visão de mundo diferente da nossa. Porque são mais leves e espontâneas. Tampouco porque falam o que pensam - nesse ponto acho que sempre me espelhei nas crianças.

 

As crianças tem muito a nos ensinar simplesmente porque elas são o mais puro reflexo de nossas inseguranças, medos e frustrações – principalmente as mais próximas, como filhos, sobrinhos e afins.

 

Enfim...Passei a semana tentando convencer meu sobrinho [liiiiiiiiiiiiindo, sou coruja e não nego] de 11 anos  de que o fato dele não conseguir pegar onda na praia logo nos primeiros dias não queria dizer que ele não era bom. Mas não adiantou. O pimpolho desistiu! Começou a encontrar desculpas esfarrapadas para não ir à praia como, “a areia me incomoda, estou muito queimado, estou assado, etc”.

 

Num dos dias explodi. Fiquei irritada! Não conseguia compreender como um menino de 11 anos troca uma praia por um vídeo game. Briguei com ele, coitado!

 

Até que entendi: ele preferia jogar vídeo game simplesmente porque era bom em vídeo game. E entendi, também, que minha irritação nada tinha a ver com ele, mas comigo mesma, pois eu era igualzinha. Nos tempos de colégio, por exemplo, me negava terminantemente a jogar basquete nas aulas de educação física simplesmente porque não era boa o suficiente. Preferia jogar vôlei [esporte que eu dominava].

 

Minha irritação, na verdade, era derivada do fato de perceber que eu ainda agia assim. “Quantas vezes eu não deixei de correr atrás dos meus sonhos por não me achar boa o suficiente” ?????? 

 

De uns tempos para cá, nada, mas nada, mesmo, tem me irritado mais do que esse meu traço de personalidade e ver uma criança refletindo esse traço, claro, causou desconforto.

 

Quantas desculpas eu já não inventei para “não ir à praia”??????????????

 

Pedi desculpas ao meu sobrinho e o convenci a ir à praia alguns dias depois da briga – não para pegar onda, mas para jogar frescobol. Foi ótimo! Nós percebemos que não precisávamos abandonar a praia simplesmente porque algo deu errado e que a praia oferecia um milhão de outras possibilidades.

Escrito por Mônica Montone às 12h55
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15/01/2006


:: Havia uma bicicleta em meu caminho, em meu caminho havia uma bicicleta::

 

 

Por Mônica Montone

 

Acordei na manhã de sexta-feira esperando um dia confuso, afinal, tratava-se de uma sexta-feira 13. Mas meu hábito matinal de checar os e-mails ao acordar me salvou: recebi um e-mail de uma amiga querida explicando que 13/01/06 seria um “dia mágico”. A mensagem contava com explicações de astrólogos, numerólogos e todos os “ólogos” que estudam magia e sugeria que assistíssemos o pôr do sol e fizéssemos um pedido.

 

Assim fiz. A praia estava linda e os dois irmãos iluminados por aquele tom dourado de fim de tarde. Resolvi fazer uma oração. Como sugere o budismo, escolhi um ponto fixo para olhar e mandei bala nas mentalizações positivas. Um dos meus pedidos ao universo foi “perseverança e serenidade”.

 

Assim que fiz o pedido, uma bicicleta foi colocada em meu caminho, impedindo-me de visualizar o tal ponto fixo. Fiquei ansiosa. Pensei em levantar. Pensei em desviar. Pensei em não fazer nada e esperar o dono da bicicleta se tocar que estava atrapalhando minha contemplação. Pensei em mudar o ponto fixo, mas como o tal ponto era uma representação dos meus objetivos imaginei que não seria bom muda-lo, pois agindo assim eu estaria me boicotando e me distanciando dos meus objetivos. Pensei, pensei e pensei. Depois pensei em parar de pensar [eu queria meditar]. Aquela oração começou a se tornar um inferno.

 

Fechei os olhos, respirei fundo três vezes e resolvi perseverar [continuar olhando para o ponto fixo, mesmo sem conseguir enxerga-lo]. Lembrei-me daquelas frases idiotas que escrevemos em cadernos de recordação na infância “todos os dias o sol se levanta e faz um espetáculo lindo, mesmo sabendo que a maioria de nós está dormindo”... Ou... “ O fato de não conseguirmos enxergar as estrelas em noites nubladas não quer dizer que elas não estão lá”......

 

Alguns minutos depois a bicicleta saiu do meu caminho.

 

Entendi que meu pedido fora atendido. Finalmente compreendi que nem tudo na vida acontece como planejamos e que não adianta querer mudar a correnteza do rio [querer mudar o fluxo da natureza é tão desgastante quanto querer controlar os acontecimentos e o resultado desse desgaste é sempre a frustração]. Deixei a praia com a serenidade refletida no olhar. Estava zen.

 

Amém!

Escrito por Mônica Montone às 01h22
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14/01/2006


 

Manifesto Anti-Antropofálico

 

Por Mônica Montone

 

 

Só o antropofalismo nos separa. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

 

Única lei da sociedade capitalista burguesa. Expressão marcada por todos os singularismos da coletividade.

 

Ser celebridade ou não ser celebridade, eis a questão.

 

Contra o desejo de poder. Contra a disputa de um poder que não existe na poesia. Contra a vaidade que cega. Contra os antropofálicos que se devoram para serem os “melhores”.

 

Estamos fatigados de todos os pseudos-intelectuais que não sabem o que dizem, mas arrotam como se tivessem mastigado Marx, Drummond, Pessoa, Whitman e Freud.

 

Os livros de auto-ajuda estão aí, disponíveis em todas as prateleiras de supermercado para transformarem a solidão e a dor humana em pequenos e invisíveis átomos. Quem precisa de poesia hoje em dia?

 

Oswald prometeu que o cinema americano revelaria a verdade por trás dos panos que nos adornam. Mentira! O cinema escondeu a verdade dos nossos corpos sob os véus do fetiche, do sexo casual, sem amor, ou, com amor em demasia.

 

Se antes não sabíamos o que era ser urbano, hoje sabemos: sofremos de insônia, estresse, gordura localizada, celulite e falta de ar quando o computador pára.

 

Contra todos os consumidores de arte enlatada. Os filhinhos de papai que usam all star vermelho e querem ser artistas só porque está na moda. Que querem obter sucesso sem nenhum trabalho. Que acreditam que a felicidade é um porto, não uma caminhada.

 

Queremos a reavaliação do que se está produzindo! Do que se está provocando!

Escrito por Mônica Montone às 03h59
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:: continuação do manifesto ::

 

 

Contra os artistas que entortam ferro e dizem que o entortamento é arte! Os poetas que escrevem versos sem vitamina, como se estivessem escrevendo em seus “queridos diários”.

 

Fomos catequizados pela mídia, sim! Chega de hipocrisia! Ninguém desligou os aparelhos de televisão quando o autor Gilberto Braga revelou quem matou Odete Roitman e Lineu Vasconcelos. A questão é: o que fazemos com as informações que nos chegam?

 

Contra a ditadura da bunda dura e do tríceps perfeito.

 

Não somos budistas, nem seguimos a cartilha do Osho. Não compramos a chave do paraíso na igreja universal do Reino de Deus. Não comemos comida natural, nem enlatada. Comemos quando estamos com fome. Comemos quando sentimos vontade. Escolhemos o que queremos comer.

 

Contra todos os indivíduos vítimas do sistema. Os indivíduos não são vítimas do sistema, mas de si mesmo, a não ser, claro, os miseráveis, que são criação do próprio sistema.

 

Contra as elites pseudo-intelectuais que fingem ter lido Guimarães Rosa.

 

Contra os poemas que não dizem nada e são apenas emaranhados de palavras.

 

Contra a arte que não permite simbolizar. A arte umbilical que em todo momento reluz em néon: EU SOU, EU SOU, EU SOU.

 

Não existe vanguarda. Tudo se copia, se recicla. Nós sempre fomos catequizados e por isso fizemos o carnaval, nosso ditirambo particular e espetacular.

 

Contra toda a ignorância e a prepotência da inovação.

 

Não existiria Modernismo sem o Romantismo, o Realismo, Parnasianismo e demais movimentos.

 

Tudo é recomeço, nova partida, reencontro, releitura, reciclagem...

 

Estamos sempre de partida, a bordo de uma nova viagem.

 

Manifesto anti-antropofálico: quem quiser que assine embaixo!!!!

Escrito por Mônica Montone às 03h58
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13/01/2006


 

Fina Flor nasceu de uma paixão: a palavra

Surgiu como uma cantiga de ninar

E hoje é a mais pura tradução

Dos meus sonhos que pedem para acordar

*** Sejam bem vindos ***

Escrito por Mônica Montone às 04h04
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:: Merecemos o melhor ::

 

Por Mônica Montone

 

 

É difícil acreditar que merecemos “o melhor” numa cultura que nos desvaloriza a cada segundo por questões puramente econômicas. A maioria dos empresários de sucesso, por exemplo, se deu bem na vida porque diminuiu alguém, ou melhor, fizeram outras pessoas acreditarem que elas não tinham talento para chegar ao topo da pirâmide e por isso deveriam servi-los.

 

Infelizmente acabamos nos esquecemos do ditado “quem desdenha quer comprar” com certa freqüência. Ou seja: o que seria desses empresários sem os seus boys, secretárias e assistentes?????

 

Dizem que não devemos querer nada menos do que merecemos. O grande problema é que nunca sabemos exatamente o quê merecemos.  “Merecemos sucesso”! Dizia uma amiga minha um dia desses.

 

Mas o que é sucesso? Ganhar dinheiro? Ter fama? Sair em jornais e revistas? Viver um grande amor? Ter saúde? Morar no exterior? Ser amado pelos amigos? Ser magro?

 

Inventaram uma fórmula de sucesso e esqueceram de avisar que nessa fórmula não há espaço para todos, pois o sucesso de um geralmente depende do fracasso de muitos.

 

A industria das dietas não existiria se todos fossem magros, por exemplo. Para que as academias, livros sobre a dieta da lua e etc e tais façam seu capital girar é preciso que poucos sejam magros e muitos estejam fora do peso “ideal”.

 

No entanto a perversidade maior desse esquema maluco não está na fórmula de sucesso inventada, mas na corrosiva mensagem “você quer, você pode, você consegue”. Existe mentira maior que essa???? Só se for a do Lula com seu discurso “não sei de nada, não sabia de nada”...

 

Acreditar na máxima “você quer, você pode, você consegue” é a maneira mais eficaz de colocar lenha na fogueira da fórmula do sucesso, pois quanto mais você acredita nisso e menos consegue o que deseja, mais se sente fracassado e quanto mais fracassado se sente, menos consegue se aproximar se seus objetivos... Dando espaço, assim, para que outros consigam progredir - muitas vezes por motivos desconhecidos e sujos.

 

Creio que o maior sucesso que uma pessoa possa ter nos dias de hoje é não desejar o sucesso. Até porque, a grande maioria das pessoas o deseja, mas se esquece que, como dizia Einstein “o único lugar em que o sucesso vem antes de trabalho é no dicionário”.

Escrito por Mônica Montone às 03h52
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